agora é que sou eu

Agora é que sou eu

Agora é que sou eu. Fui desafiada. Durante as próximas quatro semanas, que eu pare de falar de amor, de saudade, de quarto com memórias, de almas amarradas, enfim, que eu pare de “mi, mi, mi”. Preciso me posicionar, disse-me a desafiadora.

Falei: – mais??? Mas eu tô sempre me posicionando de alguma forma, seja perante as conjunturas cristãs do amor, seja sobre as culpas católicas que nos aprisionam, enfim, tem sempre uma cutucada, ali, um incômodo, eu penso.

-Mais! Disse-me ela. Você precisa ir mais.

Pensei, pra mim é mole, porque o então presidente é uma inesgotável fonte de inspiração. A cada fala, a cada atitude, a cada desmando seu ocorre toda sorte de narrativas que me estarrecem e me estremecem as vísceras, despertando o meu pior lado. Ele me “afia” a carne enquanto me desafia.

Nem preciso puxar pela memória, recentemente – aliás nesse governo tudo é recente, mas tão cansativo que já parece estar há décadas nos corroendo – enfim, recentemente ele declarou que ministros corruptos em seu governo deixariam o cargo em um “pau-de-arara”.

Um minuto de silêncio para todos os que “saíram” em um “pau-de-arara” e um “Ps” para explicar o que significa essa expressão, bem como, tudo o que ela evoca.

“(…) O pau de arara consiste numa barra de ferro que é atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho, sendo o ‘conjunto’ colocado entre duas mesas, ficando o corpo do torturado pendurado a cerca de 20 ou 30 centímetros do solo. Este método quase nunca é utilizado isoladamente, seus ‘complementos’ normais são eletrochoques, a palmatória e o afogamento.” (Fonte: Wikipeedia mesmo porque não precisa ser muito gênio pra saber o que isso significa).

Contudo, alguém que me lê pode pensar: – Não, mas não foi a este “pau-de-arara” ao qual o presidente se referiu (sim, eu tenho certeza de que foi), mas me darei ao trabalho de colocar aqui o segundo conceito para o mesmo nome:

 “É o nome dado a um meio de transporte irregular que ainda é utilizado no Nordeste do Brasil. Consiste em se adaptar nos caminhões para o transporte de passageiros, constituindo-se em substituto improvisado para os ônibus convencionais.” (Fonte: Wikipeedia mesmo)

 

Bom, como todxs podem ler, seja de uma forma ou de outra, seja em tom de ameaça, ou deboche, evocando a violência e a tortura – como é praxe do senhor seu Messias -, ou fazendo uma referência à miséria nordestina para a qual o Estado precisa dar uma solução, o termo imputado por Ele (não) deveria ser passível de punição. Como ele pode ser tão vil, tão insensível, tão cruel? Até onde vai esse poço de ausência de humanidade neste homem? É o que me pergunto todo santo dia.

 

Posso continuar aqui dizendo que na semana passada este senhor que ocupa o cargo de maior responsabilidade no Brasil “se trocou” com uma jovem ativista de 16 ano chamando-a de “Pirralha” enquanto ela ganhava um prêmio como PESSOA DO ANO  pela revista Times. Sem mais.

A impressão que me dá é a de que o Jair conseguiu a proeza, ao juntar ruindade com poder, de desvirtuar todos os conceitos que levamos anos para construir minimante e ainda estávamos no caminho. Voltamos vinte casas. Palavras como “Empoderamento feminino”, “Luta” e “Resistência” que pareciam avançar em prol da liberdade das mulheres em serem donas de seus corpos, transformaram-se pejorativamente em “mi mi mi” expressão que me dá revolta e nojo.

As manifestações pelo direito das minorias – esta palavra também estão tentando macular – foram reduzidas por uma elite cruel a “pitis”, “a neuroses”, “pessoas que não param de resmungar e reclamar”. Bingo, era só isso que ele precisava, silenciar a oposição para seguir com o seu projeto com fortes características fascistas.

Mas ainda há quem o apoie. Sob a desculpa de que o verdadeiro messias são, na verdade, dois, já que um só não daria conta (Jesus, quando voltar, volte gêmeo, por favor!): o primeiro, um então juiz que se utilizou do cargo que ocupava para ocupar outro cargo ainda maior e pleitear um maior ainda, o de ministro da justiça. Uma coisa é certa, Moro não brinca e serviço. E, o segundo, o ministro da economia que está esperando o “bolo crescer” na esperança de que, depois disso, o emprego volte a dar dignidade à miséria a qual estamos mergulhados. A favor dele, temos o Rappi e a Uber.

Vamos em frente.

Um alienígena que resolveu dar uma volta maior durante este ano e só chegou na terra agora poderia me perguntar: Mas você está torcendo contra? Não há nada de bom que se extraia desse governo?

A resposta é “sim” e “não”. E eu digo isso porque “dar certo” no atual governo se faz as custas de tantos conceitos, ideias, ideais, projetos, pensamentos e comportamentos aos quais eu sou absolutamente contra (vide a Ancine, vide a Funarte, vide às falas dos filhos dele, Vide o AI-5, etc), passa por cima de tanta gente que, a meu ver, e ao ver do novo presidente da Argentina (leia aqui ) deveria ser pauta prioritária quando, na verdade, é a parte da população que o “novo” Brasil parece querer limpar, que eu só posso torcer pra dar errado É um projeto de Brasil que favorece a quem eu considero já ser favorecida demais, no caso, eu mesma. E olhe que sou mulher, se fosse homem, era mais privilegiada ainda.

Mas, se tá bom pra você, do que você tá reclamando? Repito, não tá bom pra mim, se não tá bom pra ela, ou ele. É isso.

Vou chegando ao fim desse primeiro desafio crítico, mas já dizendo que esta crônica era pra terminar de outro jeito, porque eu a escrevi todinha e, quando fui salvar, feito um boicote, feito um alerta, feito conselho de mãe, ela se perdeu. Como que um anjo me dissesse: pare com isso, essa sua militância vai te fazer um mau danado. Mas, já falei isso em algum momento, quando você resolve olhar pro outro, pro mundo lá fora, é um caminho sem volta. 

Ficaram só os primeiros parágrafos a partir dos quais eu tentei resgatar o que eu havia escrito. Impossível. Como diz a Band, “em 20 minutos, tudo pode mudar” e de sábado pra segunda-feira – quando reescrevi – já comecei e já acabei de ler o livro da Manuela Dávila, já enfrentei fantasmas, já me encantei, já gargalhei e chorei, já contraí até uma dor de ouvido que tá aqui me atrapalhando a concentração. Já nem sou mais àquela.

Com o desafio de escrever uma crônica opinativa, concluo que a maior sabedoria de um ser humano está na capacidade de se permitir mudar de opinião. Nascer e se manter fiel às convicções é uma forma de emburrecimento porque, de onde partimos, sabemos tão pouco, vivemos quase nada.

Mudar de opinião não significa ser incoerente. De alguma forma, àquilo que se é dá um jeito de se tornar, aflora feito flor de cacto que, por mais que se pense que não, por mais que haja espinhos, por mais que o terreno seja seco e infértil, por mais que, ele floresce.

2019 fez de mim um cacto.

 Agora pe 

2019 fez de mim um cacto

5 Comentários

  1. Marcos

    (Enquanto a cronica do dia não abre em meu cel, tive vontade de escrever: o autor deve ser patrulhado ou seguido? Seria ele portador de algum desvelamento ou entreter tornou-se sua única porta no XXI?
    Era o que gostaria de escrever, mas não vou.)

    1. Luciana Targino

      Faço-me as mesmas perguntas… Na “sociedade do espetáculo” é difícil não existir o autor patrulhado e penso que muita gente confunde o entreter com o divertir/ser alegre. Por vezes o que entretém não é o que faz rir, o que descontrai, mas, muito mais, o que intriga, incomoda, te tira do lugar. Penso por aí. Enfim, temas que dão muito pano pra manga. Quem sabe não vira é uma crônica? Aguardo seu texto sobre ele.

      1. Marcos

        👏🏻👏🏻👏🏻 “Com o desafio de escrever uma crônica opinativa, concluo que a maior sabedoria de um ser humano está na capacidade de se permitir mudar de opinião…
        Mudar de opinião não significa ser incoerente.”

        Quem escreve sábias palavras pode falar sobre tudo, do jeito que desejar e ainda ganha o direito (obrigação moral) de ser ouvido com respeito.
        Pachycereus pringlei ou Blossfeldia liliputiana? O maior ou o menor dos cactos são parte do caminho de todos nós nessa vida.

  2. MG

    👏🏻👏🏻👏🏻 “Com o desafio de escrever uma crônica opinativa, concluo que a maior sabedoria de um ser humano está na capacidade de se permitir mudar de opinião…
    Mudar de opinião não significa ser incoerente.”

    Quem escreve sábias palavras pode falar sobre tudo, como desejar e tem todo o direito (obrigação moral) inalienável de ser ouvido.

    Pachycereus pringlei ou Blossfeldia liliputiana? O maior ou o menor dos cactos são parte do caminho de todos nós nessa vida.

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