Alienação - é preciso sobreviver

Lira Neto nos disse ontem: Vamos pra arte. Vamos ler livros, vamos ao cinema, vamos dançar um samba, um forró. Eu corroboro, vamos existir suspensos porque o contemporâneo tá duro demais.

Nos últimos, dias tenho estado focada em Monteiro Lobato e na Psicanálise dos Contos de Fadas do Bruno Betelheim. Eles andam me salvando, junto com a Zélia Gattai.

Pela infância dos personagens do Sítio, vejo o tanto que o carinho de uma vó e de uma empregada fazem diferença na vida de uma criança e, acredito, de um adulto. É bem verdade que precisamos pensar nas características desta empregada sempre negra, desta avó sempre gorda e disposta a cuidar dos netos, é bem verdade que precisamos desconstruir muita coisa quando relemos grandes clássicos porque o contemporâneo nos exige comparações e senso crítico. Coisinhas difíceis para quem está naquela zonazinha favorável da pirâmide social.

É bem verdade também que ler Zélia Gattai não tem me distraído, aliás, tem me dado mais medo, pois vejo o futuro repetir o passado na voz de Cazuza com a ditadura ao fundo. Agora, ao lado, à frente, aqui. As memórias de Zélia também trazem censuras, torturas, exílios, ditaduras… Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Estou triste. Já disse isso na semana passada, eu sei, mas piorou. A última declaração tripudiando da morte de um pai torturado e morto para atacar um filho é demais pra mim. É muito mais do que suporto. Me uno ao Matheus Nachtergaele que pergunta: “Por que vocês elegeram o nada, o abismo mais tristonho, a moral mais tacanha, a truculência machista, o discurso mais sem poema e sem verdade”?

Eu me pergunto todos os dias e tento me convencer de que esse eleitor foi enganado e que ainda está com dificuldade de assumir o golpe que levou. Ele, o presidente, é pior do que qualquer pessoa que votou nele, eu tenho certeza. Creio nisso porque nenhum eleitor de Jair que conheço, e não são poucos, nenhum consegue reunir em si toda essa maldade, toda essa perversidade, toda essa miséria humana de alma.

O anti-petismo, o amor ao Moro, a esperança no “Posto Ipiranga”, o mito incorruptível, a moral da família brasileira, o porte de armas e as demais “promessas” de campanha de Jair caíram no gosto das pessoas, mas nem todos concordavam com tudo, em tudo. E, pior, ninguém poderia prever que ele seria capaz de tanto. Nem adianta dizer que você avisou porque eu também avisei, mas não falei de tudo, porque jamais poderíamos prever isso tudo?

Escrevo na certeza de que, se nada mudar, e logo, daqui a pouco já não poderei mais escrever sobre isso. O que eu sempre temi, mas não acreditava, a volta d´Ela, essa nuvem preta que nos assusta ao falar, ao cantar, ao assistir, ao aplaudir; ela que pune quem é livre, quem não pensa igual, quem se rebela; ELA que é truculenta, agressiva, violenta; ELA que mata e some com o corpo… Ela tá voltando sorrateiramente, descaradamente e rapidamente.

Penso no perigo da massa alienada. Daquela que ainda tá preocupada se estão gritando “Lula livre” nas ruas, nas sessões de teatro e cinema, este gueto que ainda nos resta de reflexão e consolo. A agenda é outra, a pauta mudou e, arraigados a esta crença de PT causador de todo mal, as pessoas vão desculpando a atual barbárie no qual entramos com a ajuda da gente mesma.

Somos péssimos enquanto sociedade, isso não dá pra negar. Das garrafas plásticas e guimbas de cigarro lançadas no meio da rua, até o trato que se tem com os empregados, chegando aos políticos que elegemos, certamente não aprendemos nada com o passado. O que é péssimo, o que é perigoso, o que me entristece.

Mas, mesmo não sendo lá essas coisas toda, nós não somos esse cara que tá aí. Ele é pior do que qualquer um de nós, porque ele deveria representar o que temos de melhor e disso ele passa longe. Ele desagrega, ele tripudia, ele debocha e eu poderia citar um milhão de exemplos aqui. Nem no tocante ao mito incorruptível você que votou nele pode se apegar, pois os filhos dele estão todos encalacrados e ele nada diz. Nem ele e nem àquele juiz que, creia, eu também já fui fã. Como pude?

Como podemos?

Só consigo pensar que não posso perder as pessoas. Que não podemos nos perder. Ninguém pode se perder de vista e se deixar ir embora por dilemas que vivemos no final de 2018. É tempo de reflexão novamente, de conversa de novo pra que o “lado de lá” possa falar do seu lado não Bolsonaro e, dessa forma, talvez, possamos nos organizar como uma sociedade melhor

Quanto a mim, preciso buscar outra fonte de alienação. A nova novela das sete estreou ontem. Grazi Massafera, Antônio Fagundes e o gostoso do Rômulo Estrela estão maravilhosos no elenco.

P.s.: Segue a lista, que só aumenta:

Quem mandou matar a Marielle? Cadê o Queiroz? Cadê a investigação do COAF e do gabinete do zero 1, 2, 3? Sei lá qual deles foi. São dois os envolvidos em escândalos diferentes. Onde o Bolsonaro estava quando o pai do presidente da OAB foi torturado e assassinado pra saber de tanta coisa que só viria a revelar agora? Cadê a ética do Moro? Cadê a justiça do Dallagnol? Cadê os agrotóxicos todos liberados? Ops, já sei, estão bem aqui dentro de mim e bem aí, matando você também.

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