as leis dos homens, as leis de deus

As "leis dos homens", as "leis de deus" e o "jeitinho" basileiro

Está acontecendo algo muito curioso com o “jeitinho” da população brasileira. Na verdade não está acontecendo neste momento, sempre aconteceu, desde que me entendo por gente que percebo as coisas fora de uma ordem lógica, mas agora, com a pandemia, parece que tudo ficou bem mais claro a meu ver.

Crônica densa, polêmica, que vai articular o “jeitinho brasileiro” com a “leis dos homens” (e quando se fala “leis dos homens”, tenha certeza de que estamos falando de lei que protege homens, brancos, ricos e heteros) e, ainda, com as “leis de deus” (temo que só por falar em “leis de deus” eu já seja castigada. Não por ele, Deus, que, se estiver me lendo e me vendo, há de ver que eu sou meio trôpega em seus mandamentos, mas que tenho um bom coração, com intenções boas).

Pois bem, nesse período de pandemia eu segui beeeeeeem direitinho o que mandou as “leis dos homens”, digo, a ciência, o meu governador, o meu prefeito e o secretário de saúde do meu Estado. Não saí no lock down, mantive o isolamento social pelo tempo determinado e o distanciamento eu ainda mantenho. Só saio com máscara, as duas vezes que fui ao shopping, fui com máscara e faceshield, não me aglomero e, se sento pra conversar com pessoas extra minha casa, mantenho uma distância regular de uns quatro metros.

Resultado: sou neurótica, radical, exagerada, etc. Não me incomodo, acho até engraçado e eu mesma tiro onda com minha cara, mas é estranha essa inversão na qual se arriscar e colocar os outros em risco parece ser o que é aprovado pela sociedade brasileira.

Por outro lado, deixo bastante a desejar quando o assunto são as “leis de deus”. Não o amo sobre todas as coisas, chamo seu nome em vão o dia inteiro, tudo bem, eu não mato e nem furto, mas não guardo domingos em festa e vou parar de evocar os dez mandamentos aqui que é pra não gastar o tempo de vocês e nem me enrolar ainda mais.

De deus, tem uma lei que eu me esforço para internalizá-la cada vez mais e sempre que é: “ame ao próximo como a ti mesmo” e penso que ela seria a solução para a grande maioria dos nossos males.

Daí que eu vejo uma foto da praia de Ipanema do último domingo lotaaaaaaaaaaaaaaada feito num carnaval, sendo que está proibida a ida à praia por lá. Tudo bem que lá no Rio não se sabe qual lei seguir, já que o prefeito evangélico é uma ameba, o governador, como vários outros no Rio, foi afastado por corrupção, apesar de que o seu afastamento não tenha tanto a ver com a corrupção, mas mais com uma milícia federalizada, mas não vou me alongar nisso.

Pois que se siga a lei do bom senso, ora.

Conversando com um amigo, falamos sobre como se tornou constrangedor no Brasil seguir os protocolos sanitários de prevenção e combate à Covid-19 (veja esse tweet aqui). Tão estranho que a cada vez que eu “avanço” em meu desconfinamento, sinto como se as pessoas me saudassem com orgulho. Ou seja, quanto mais eu me exponho à doença e, portanto, exponho outras pessoas a ela, quanto mais eu deixo de me cuidar – de me amar? – e, portanto, de cuidar do próximo, mais “normal” eu me torno.

Gente, isso é muito puxado pra mim. Pelo amor de Deus, eu não dou conta. Apesar de saber que todo mundo que me cerca quer o meu bem, não tenho dúvidas, o problema que existe aqui é a lógica vigente à qual somos doutrinados a viver desde cedo. Ela é invertida.

Posso levar essa inversão para outros temas, como o Feminismo, por exemplo. Penso que das piores lutas do Feminismo seja contra o machismo nas mulheres que se assustam com as pautas dos movimentos sem perceber que usufruem diuturnamente da liberdade alcançada por mulheres feministas que até queimadas na fogueira já foram. Dá pra entender? Explico, é você ter que explicar pra uma mulher que se ela pode emitir alguma opinião sobre Feminismo, é porque alguma feminista enfrentou um bando de machistas e garantiu que ela tivesse direito à voz, ao trabalho, à usar calça jeans, a votar, enfim, a existir como cidadã. Puxado.

A questão é o danado do “jeitinho”. Aqui no Brasil, seguir as “leis dos homens” (essas, claro, cheias de ressalvas já mencionadas, mas é sempre bom reforçar) é fazer papel de trouxa. Enfrentar uma fila imensa sem tentar furá-la de alguma forma, sem tentar contatar um amigo do-primo do-marido da Fulana-dono da festa- que vai te fazer pagar meia e furar as 200 pessoas que, igual a você (ops! igual não, claro que você não é igual, você não merece aquela fila) também querem entrar na mesma festa, se você enfrentar essa fila, você é um otário.

Posso elencar vários exemplos, desde se fingir de grávida, ou dizer que a mãe doente está esperando no carro pra não pegar a fila do banco, até se passar por morador de Fernando de Noronha só pra não pagar a taxa de estadia de preservação da ilha e ainda, de quebra, conseguir um baita desconto na passagem. Brasileiro é bicho escolado mesmo, esperto que só ele.

São essas pessoas, ou pelo menos muitas dessas, que vão à missa, ou ao terreiro, ou a qualquer lugar onde more a sua fé, são essas mesmas pessoas que apedrejam sobre nós com julgamentos a palavra de deus. Não consigo me esquecer da criança estuprada e grávida, do quanto ela sofreu na mão de pessoas más que “pregam” a palavra de deus que, se ele estiver ali mesmo onde dizem que ele está, ele deve estar absolutamente constrangido com seu uso em vão.

É moda no Brasil ser devoto e absolutamente fora de moda ser honesto.

Veja bem, falar de honestidade é um assunto delicadíssimo num Estado-nação com índices de desigualdade social terríveis, com um racismo nas alturas e um machismo que estupra uma mulher a cada hora. As leis não foram feitas para proteger mulheres, pretos e pobres, mas apenas para puni-los e culpá-los.

Sei que tocar nesse assunto e não aprofundar é leviano e pode gerar muita confusão, mas ele não cabe no espaço desta crônica, não hoje. Se quiser entender um pouco mais do que digo, leia o livro “Lugar de fala” da Djamila Ribeiro, é pequeno, fininho, mas absolutamente necessário.

Quanto a mim e todas as leis, seguirei cambaleante tentando me encontrar num lugar onde haja afeto, empatia, abraços (depois da vacina). Lugar onde eu encontre compreensão, mesmo onde haja discordância de opinião (e isso eu tenho encontrado dentro da minha família e é a coisa mais linda do mundo. Se essa pessoa me ler, vai saber que é dela que estou falando.). Seguirei tonta buscando compreensão dessa humanidade da qual eu sou contemporânea. Seguirei com o olhar atento ao Outro e militante sempre pra que outras pessoas também o enxergue.

Por fim, estou desconfinando-me, mas vigilante para não ser irresponsável, para não desafiar um inimigo que não vejo e que pode ser bem mais forte do que eu, do que os meus.

Que Deus, se ele estiver, que me proteja e proteja muito mais a quem tem muito menos. Salvo engano, essa era a palavra de Jesus, que certamente seria comunista, pois dividia tudo o que tinha, mas isso é tema pra depois.

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