as pessoas que a gente vai perdendo

As pessoas que a gente vai perdendo

Acabei de ler um post de uma pessoa sobre o falecimento de um ente querido dela. Não soube como reagir, não sabia direito o que falar. Eu teria tantas coisas pra dizer pra ela, mas, como essas coisas da vida que a gente não sabe onde começou direito, que a gente tenta voltar no passado pra saber quando tudo (des) começou e não acha, como essas coisas da vida, eu não soube o que falar. Mandei um emoji.

Essa pessoa, assim como outras, assim como algumas na sua vida também eu tenho certeza, são as pessoas que a gente vai perdendo. 

Não houve uma briga, nenhum motivo do qual você se lembre que possa ter causado a cisão, que nem foi uma cisão, aliás, foi indo, simplesmente foi indo e a gente vai se perdendo. Vai perdendo as pessoas.

Essa pessoa pode ser a melhor amiga de anos, pode ser uma tia, uma prima, um amigo com o qual se fez até jura de dedinho de que jamais se afastariam. Você nem se lembra, passa meses sem nem lembrar da criatura. Aí, vez em quando, quando vê uma foto daqueles tempos, quando lê a pessoa no Facebook, aí é que você se lembra. E vem um fio te conduzindo a memória até os tempos em que se era, em que éramos.

Grudadas, unha e carne, mãe e filha, amigas, irmãs, irmãos, um bando que não se largava, uma galera que tinha tudo a ver, com quem se varava madrugadas inteiras e tudo parecia fazer sentido. Ali, nos vinte e poucos anos, ali, nos sete, oito, dez. Ali naquelas horas de divisão de sala de trabalho, ali, onde se investiu tanta vida, tanta amizade, tanta energia. Perdemo-nos.

As pessoas se vão, mesmo sem se mudarem de lugar. 

Você sabe onde ela mora, às vezes é tão perto de você, você até encontra com a ela, mas você e ela, a pessoa, aquela história já foi. Perderam-se, e talvez você já nem se lembre mais do que as unia.

Mas eu me lembro. Não de todas, claro, tem gente que se vai mesmo por falta de afinidade, porque tinha que ir. Mas têm umas três ou quatro (um pouco mais) pessoas das quais eu me lembro de tudo. De como era e de como era bom. Lembro com saudade de como seria se aquela amizade tivesse perdurado até hoje. Certamente seríamos mais fortes, teríamos uma a outra pra dividir os fardos que não cessam e os sorrisos que também não. Amizades de uma vida fortalecem a gente. Como bem disse uma grande amiga, são pessoas que nos ajudaram a construir a nossa personalidade. São “pedras” fundamentais.

Tenho tias que conservam como uma família unida as amizades de infância e vejo como isso as compõe, como elas se fortalecem nesses laços que trazem desde o colégio até hoje. É como se a vida tivesse um caminho, um sentido, é meio que colo de mãe, é um lugar sagrado esse das amizades de infância. É gente que sabe da gente e se lembra do que a gente nem se lembra mais. Já escrevi sobre isso aqui.

Eu sei, a gente muda e por isso, perdemos pessoas. Mas não falo dessas pessoas. Falo daquelas que teria sido bom se tivessem ficado, mesmo se você tivesse se mudado de cidade, mesmo que os maridos nem virassem grandes amigos como vocês sonharam, mesmo que você gostasse mais de samba e ela de heavy metal, mesmo que ela apoiasse o presidente e você não… Vocês eram tão maiores e tão anteriores a tudo isso. Isso ia passar (digo do presidente), vocês não.

Como consolo, ainda que não substitua, é que sempre existe espaço para as novas pessoas. Para aquelas que talvez entrem na vida agora e vão contigo até o fim. Adultos que somos, calejados que ficamos, a gente tende a desacreditar em amizades pro resto da vida depois de certa idade – que já nem sei que idade certa é essa – mas tenho certeza de que dá sim. Se novos amores podem surgir em qualquer idade, por que não uma nova amizade?

Pois é. Mas as pessoas que a gente vai perdendo, ah!, essas pessoas, que pena que as perdemos de vista, ainda mais em vida.

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