Censura belchior

Contra a cultura e a arte: a arte e a cultura - Uma resposta pela arte de Belchior ao discuso de Roberto Alvim.

A crônica desta quarta-feira teve inspiração na minha visita ao Centro Cultural Belchior em Fortaleza, um pequeno reduto das obras do Mestre que merece demais a visita. Saí de lá inebriada e, ao me deparar com o discurso do ex-secretário, que me deixou atônita, resolvi usar o antídoto contra a praga. Tudo o que está em negrito, é o discurso de Alvim, o que não está, é letra de música do Belchior. São de impressionar, tanto a ingenuidade/agressividade do discurso, quanto cada letra de Belchior que vem para nos redimir nesse “paraíso” perdido chamado Brasil.

“Olá, meus amigos, eu sou Roberto Alvim, Secretário Especial da Cultura do governo do presidente Jair Bolsonaro. Eu venho falar à vocês sobre um assunto muito importante. Quando eu assumi esse cargo em novembro de 2019, o Presidente me fez um pedido. Ele pediu que eu faça uma cultura que não destrua, mas que salve a nossa juventude.

– Eu não estou interessado em uma nova teoria, em nenhuma fantasia, em no algo mais… A minha alucinação é suportar o dia a dia e o meu delírio é a experiência com coisas reais.

 A cultura é a base da pátria. Quando a cultura adoece, o povo adoece junto.

– Eu tenho medo e já aconteceu. Eu tenho medo e ainda está por vir.

E é por isso que queremos uma cultura dinâmica, mas ao mesmo tempo, enraizada na nobreza de nossos mitos fundantes

– Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha…

A Pátria, a família – Minha mãe me chama, é hora do almoço, a coragem do povo – eu tenho medo e medo está por fora, o medo anda por dentro do teu coração... Eu tenho medo de abrir a porta Que dá pro sertão da minha solidão. Apertar o botão: cidade morta Placa torta indicando a contramão) e sua profunda ligação com Deus – viver a divina comédia humana… morando na filosofia – amparam nossas ações na criação de políticas públicasmedo, medo, medo, medo. As virtudes da fé, da lealdade, do auto sacrifício e da luta contra o mal serão alçadas ao território sagrado das obras de artemeu bem, mas quando a vida nos violentar, pediremos a Deus que nos ajude. Nossos valores culturais também conferem grande importância à harmonia dos brasileiros com a sua terra e sua natureza El Condor passa sobre os Andes e abre as asas sobre nós. Na fúria das cidades grandes eu quero abrir a minha voz… Meu bem, não pense na paz que deixa a alma antiga. Tentar o canto exato e novo, que a vida que nos deram nos ensina, pra ser cantado pelo povo, na América Latina.

Assim como enfatizam a elevação da nação e do povo, acima de mesquinhos interesses particulares. A cultura não pode ficar alheia às imensas transformações intelectuais e políticas que estamos vivendoEu pergunto ao Assum Preto, Black Bird, o que se faz? Assum Preto, Black Bird, me responde: O passado nunca mais.

A arte brasileira da próxima década, será heroica e será nacional – Desesperadamente eu grito em português – Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povoRevólver, cheira cachorro, os humilhados do parque com os seus jornais. doze jovens coloridos, dois policiais cumprindo o seu duro dever – ou então não será nada  – Por isso cuidado meu bem há perigo na esquina. Eles venceram e o sinal está fechado pra nós. Ao país a que servimos, só interessa uma arte que cria a sua própria qualidade a partir da nacionalidade plena Eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês – e que tem significado constitutivo para o povo para o qual é criadaQuero o meu corpo bem livre e o peso inútil da alma… Quero quebrar o quebranto permitido e o proibido.

Portanto, almejamos uma nova arte nacional – No presente a mente o corpo é diferente e o passado é uma roupa que não nos serve mais. capaz de encarnar simbolicamente os anseios desta imensa maioria da população brasileiraEu quero que minha voz saia no rádio pelo alto falante; que Inês possa me ouvir posta em sossego a sós, num quarto de pensão, beijando um estudante. Quem vem de trabalhar bastante escute e aprenda logo a usar toda essa dor quem teve que partir para um país distante não desespere da aurora, recupere o bom humor.
Ai! Solidão que dói dentro do carro… E o amor que traz a luz do dia e deixa que o sol apareça sobre a América, sobre a América do Sul – com artistas dotados de sensibilidade e formação intelectual – Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento gente jovem reunida. Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais capazes de olhar fundo e perceber os movimentos que brotam do coração do Brasil, transformando-os em poderosas formas estéticasEu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior. Sentado à beira do caminho pra pedir carona.

São essas formas estéticas geradas por uma arte nacional que agora começará a se desenhar, que terão o poder de nos conferir a todos, energia e impulso para avançarmos na direção da construção de uma nova e pujante civilização brasileira – Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava, de olhos abertos lhe direi: (in) amigo eu me desesperava. É neste espírito que o governo federal tem o orgulho de lançar os seguintes prêmios nacionais de fomento às Artes… [ narração dos prêmios para a área cultural]

O Prêmio Nacional das artes gerará milhares de empregos, assim como uma ampla capacitação profissional e formação de público. Configurando um panorama das maiores realizações artísticas oriundas das cinco regiões do BrasilEu quero é mandar pro alto o que eles pensam em mandar pro beleléu e que tudo o mais vá para o céu. Trata-se de um marco histórico nas artes brasileiras de relevância imensurável, e sua implementação e perpetuação ao longo dos próximos anos, irá redefinir a qualidade da produção cultural em nosso país  – Eu estou muito cansado de não poder falar palavras sobre essas coisas sem jeito que eu trago em meu peito. E é por tudo isso que afirmo a vocês, meus amigos, 2020 será o ano de uma virada histórica – Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. 2020 será o ano do renascimento da arte e da cultura no BrasilEu vou ficar neste país, não vou pro exterior não, pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação. Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração. Muito obrigado Até (nunca) mais ver! Amar e mudar as coisas, me interessa mais.”

 

 

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