conversa de pescadora

Conversa de pescadora

Eu queria que você visse o que eu estou vendo agora. Claro que um pouco longe de mim, né?, porque ainda não tá dando pra aproximar, mas eu queria muito que você visse isso aqui.

Não é “conversa de pescadora”, não. Daqui de onde eu estou sentada, tem um pequeno gramado, areia e um mar que se emenda num céu nublado, carregado de água que, torço, desague bem aqui na minha frente.

São oito e meia da manhã e, às sete, fazia um sol lindo, então, já tomei banho de mar, pode chover. Não tomo banho de mar com chuva porque tenho medo de raio. Não que eu tenha meeeedo, mas tem que ter, vai que cai na minha cabeça. É igual ao Corona, você pode ter ou não medo dele, mas o jeito de pegar é o mesmo. Descuidou, ele pimba!

Começou a chuva. Agorinha. Bate aqui nas telhas e é um barulho tão bonito, parecido com o da minha infância. Tá fresquinho sem estar frio e se tiver outra vida pra viver que não essa, eu nem preciso conhecer não. Por hoje, o melhor lugar do mundo é aqui e agora.

Auto-ajuda, eu sei, mas é que não dá pra não ser grata depois de quase um ano praticamente no mesmo lugar, já decorando até como se forma a poeira toda semana em cima dos móveis, poder descansar o olhar em outras paragens e sentir cheiros, sensações outras, é benção. Ontem à noite, eu, que detesto frio, me deixei arrepiar com o vento que batia pro meu corpo se lembrar de como era o arrepio de vento soprando frente ao mar.

Eu, que sempre estou de olho em uma certa dieta, hoje me esbaldei com um rocambole de goiabada – bolo de rolo – e tô até agora me lembrando dele com o leitinho quente que tomei no café da manhã.

-Você come pouco, né?

Disse a moça simpática que cuida desta única hóspede do recanto, me dando um consolo após a carga de açúcar logo cedo. Não, não sou neurótica assim, amanhã vou comer de novo.

Pronto, a chuva já passou. Aliás, enquanto eu conversava aqui com você, ela passou, mas eu me distraí e nem te contei.

“Lá vem o sol, “tchubidjura”, lá vem o sol e eu já sei. Tá legal!”

Daqui a pouco é hora de praia de novo, é hora de ser feliz de novo. Não que eu estivesse triste há cinco minutos, pelo contrário, mas gosto dos dias nublados que nos desobrigam a sermos felizes. Ora, tem um sol, um mar, a brisa e você vai ficar melancólica? Não pode, mesmo que você esteja. Para isso, melhor os dias nublados.

Mas hoje, eu não estou melancólica e ninguém está me obrigando a ser feliz, sou eu mesma que quero e estou porque dei uma sorte danada de hoje poder estar aqui sentada com vista pra este gramado, areia, mar e céu que não sabe se deságua ou se brilha.

Ontem uma estrela cadente caiu por mais de 15 segundos na minha frente. Fiz tantos pedidos… Sei lá se pode, mas, pelo tempo, fui fazendo.

Encerro esta conversa fiada, “conversa de pescadora” de nada com nada com Leminski que é pra me redimir com você que chegou até aqui.

“Eu não discuto com o destino, o que pintar, eu assino.”

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