Escrevo essa crônica entre uma guerra de almofadas na sala, brigadeiro para crianças e eu trancada no quarto no meio da festa. Uma correria.

Desde quinta-feira passada que eu corro. Corro do Rio de Janeiro pra Fortaleza, corro em Fortaleza para amparar os meus, corro para cuidar, para pingar, para tampar. E corro com medo.

Com medo de não dar conta, com medo de não dar certo, com medo de fazer errado, com preocupação, corro sem entender direito, corro com medo de falhar. Corro com medo de não corresponder, corro com medo de decepcionar, com medo de ele ficar triste, com medo e não ser o bastante.

Em meio à correria, me vejo num furacão que me acalma. Vejo amor. Eu só vejo amor. Olho pra ele e só me vejo leoa, me vejo coruja, me vejo colo. É um colo lateral, coadjuvante, mas daqueles que ganham Oscar.

Sinto uma vontade de que ele não perceba nada, de que ele sinta o mínimo possível dentro desse impossível que é viver e, de repente, ser atravessado por um pedacinho de qualquer coisa que machuca o olho.

Corre, corre entre as consultas e a única sentença que importa: vai ficar tudo bem. Nessa hora a minha fé é cega. A mesma que duvidava de tudo na semana passada (leia aqui), essa mesma regada a um ceticismo desesperado por ajuda do além, essa mesma cega diante de tudo o que possa me trazer consolo.

Corro. Pra pertinho dele, ele que só quer brincar e comer castanhas e brigadeiro. Que não quer pingar remédio, que não quer botar tampão e com razão.

Corro e viro princesa, viro super herói, viro monstro das unhas vermelhas, viro a Sky, viro a mulher do Batman, além da Jiraiata, nome inventado para a mulher do Jiraya (você se lembra dele?)…

Desculpe a demora, parei de escrever a crônica, pois escutei uma voz – aliás, a voz que eu mais gosto de ouvir – chamando: – Amigo, amigo. Saio e descubro que a “moto” estava “presa” e “sem gasolina”. “Abasteço-a” no “posto” e tudo volta a ficar bem. A vida da criança deveria ser sempre entre aspas, sempre com tom de brincadeira e risada, sempre café com leite, só doenças de mentirinha, tipo gripe e dor de ouvido… Quando muito, uma febrinha.

Mas eu descobri recentemente que a nossa redoma é de vidro frágil. Que coisas entram, pessoas entram, bichinhos entram dentro dessa camada louca de amor e de “proteção” que a gente tenta colocar em torno dos nossos pequenos. Não sei em que artigo da constituição está escrito que criança pode se ferir gravemente, pode adoecer gravemente, isso devia ser proibido. Aliás, tudo que não venha a ser amor para com uma criança deveria ser proibido por lei. E punido gravemente, veementemente, com pena de morte mesmo – agora, estou falando dos crimes bárbaros que a gente vê em manchete de jornal. Tudo, tudo de ruim contra uma criança não merece viver.

Mesmo sem entender, sigo correndo. Aliás, vou correr pra encerrar essa crônica porque lá fora tem uma criançada correndo. Corro pra onde tem amor, corro pra onde tem um mundo de fantasia, corro pra onde tem meu pequeno. Sigo correndo porque, no final das contas, tudo vai ficar bem.

E foram felizes para sempre.

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