Cotidiano: singular e plural

Ele. Viúvo, deficiente físico, fruto de uma Chikugunya com tantas complicações que desafiou até a área médica.

Ela. Cuidadora dele. Toda arrumada para acompanhá-lo na fisioterapia. Ela mal sabia que já estava completamente apaixonada por ele.

Elas. Duas meninas, uma de quatro e a outra de dois. Órfãs da mãe que foi fazer cirurgia plástica. Àquela.

Ela. Levando os filhos pra escola culpando-se pela torta que comera ontem e não deveria. Foi tão difícil perder os dois quilos. Esquece. Ela, pensando nele que não vê há anos. Será que a acharia envelhecida? Será que ela ainda despertaria nele o mesmo tesão de antes? Esquece. Ela, voltando pra casa cheia de compras, o marido quer comer fígado hoje à noite.

Eles. Ainda não sabem o que farão com este sábado à noite. O dever – quando se tem 16 anos – manda ir pra balada, encher a cara pra mostrar pros amigos que não tem mais nenhuma criança ali. A vontade? Ficar em casa jogando computador com o irmão mais novo do Pedrinho, de 10 anos, que nem imagina ainda o fardo que é carregar uma adolescência nas costas. É duro, Pedrinho, é duro!

Tu. Quem nem sabe direito o que tá sentindo. Não sabe se liga, se morre de raiva, se pede perdão.

Nós. Esquece.

Ela. Chegou mais cedo no trabalho hoje. Tava cheia de coisa pra fazer. Esquece. Ela chegou mais cedo no trabalho hoje pra se ver livre das ocupações domésticas. Queria um tempo pra pensar em si. E nele. Sem que o marido interrompesse a fantasia pedindo pra ela passar a manteiga enquanto ele lia o jornal. Já se vão onze noites sem sexo. Ela. Esquece.

Vós. Sois seres desprezíveis.

Fulano. Nem sabe ao certo o que está fazendo aqui. Pegou o primeiro avião depois de anos em coma. Queria recuperar o tempo, queria saber qual o gosto que a vida tem. Perdeu-se. Achou-se.

Maria. Sem nome composto. Mais uma, apenas e tanto. Acordou mais tarde, perdeu a hora porque, depois de tempos, a cama esquentou, ela se permitiu ir até às três. Ela, vai levar suspensão no trabalho e vão descontar do salário. Ela, não vai mais poder fazer a festa de aniversário da filha porque gozara a noite. Ela, vai se culpar pela vida inteira. Esquece isso, Maria.

Ele, olhou pra si e enxergou-se mesquinho e machista. Olhou pra Ela e entendeu o tamanho da mulher que tem ao lado. Ele, faz aulas de filosofia pra ver se entende um pouco mais do mundo onde dela voa. Mal sabe ele, ela já tá longe, bem longe. Mas sempre volta pra pegá-lo pela mão. Ele, precisa dela feito ar.

Ela. Começou hoje. Depois de muito exitar, temer e postergar, hoje ela foi. Cheia de medo e uma coragem que nunca tivera antes. Ela foi.

Ana. Nasceu. Não tem ideia de nada. Nem sei ao certo se tem ideias. Tudo dói. Ossos se encaixando, o frio, o calor, a fome e a barriga. Ana tateia a mãe. Para tudo de doer. Por alguns minutos, Ana e mãe serão só uma. Depois, tudo passa a doer. Ana, vai doer até o fim. Mas vai ser bom.

Ele. Bem que podia dar outra chance. Pra si. Vai que, dessa vez dá certo, pensa. Vai que calha de ser a hora certa. Vai que a oportunidade se encontra com a sorte às três da tarde dessa terça quente? Vai que?

Eles. Olham a professora de trigonometria e… comida, beijo na boca, primeira transa, show de rock, viagem de férias, a gatinha, o gatinho. Esquece. Os catetos batem em suas cabeças e a hipotenusa grita. Tudo é quadrado. Melhor passar de ano.

Eu. Eu quem? Você, ora. Quem? Eu? Claro, você. Você ou Eu? Esquece.

Ele pediu pra ela ficar. Ela topou cuidar das filhas e da casa. Levar pra escola e foi preparar o fígado que ele gosta de jantar.

Eles decidiram ir.

Tu? Nós? Esquece.

Ela trabalhara o dia inteiro, voltara pra casa e pediu o divórcio. Pediu demissão também, eles eram desprezíveis naquela empresa e naquela casa.

Maria, cantou parabéns com bolo sem calda e comprou uma boneca. O pai nem apareceu. A filha, a criança mais feliz naquela noite com quase nada. Com tudo.

Fulano tá na Índia, ou Tokyo, não sei. Nem ele sabe.

Ele hoje tá quase lá. Quase no mundo dela, cada vez mais homem, cada vez mais dela, cada vez mais seu.

Ela nunca mais parou.

Ana sente dor de cotovelo e na consciência. A lombar também incomoda quando ela esquece.

Ele. Tentou e não rolou. Talvez na próxima.

Eles. Nunca entenderam que a hipotenusa é igual a soma dos quadrados dos catetos. Ou seria o contrário?

Eu. Eu quem? Você, ora. Quem? Eu? Claro, você. Você ou Eu? Esquece.

cotidiano

2 Comentários

  1. Paula

    Tu é f***. Escreve muito! E nós aqui? Nós amamos você, aqui e lá, em qualquer lugar. Bjs de nós 4.

    1. Luciana Targino

      E eu aqui? Fico como? Transbordando alegria e amor por vocês 4 e por nós todos.

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