carta aberta aos meus primos

Crônica aberta aos meus primos

Sou filha de uma família imensa. Meu pai têm sete irmãos e dois primos muito próximos e esses nove tiveram 26 pessoas das quais eu sou uma delas. E pode parecer estranho, mas essas 26 pessoas fazem parte do meu núcleo duro de relações.

Com elas eu vivi grudada a vida inteira. Eu sempre estudei nos mesmos colégios que elas, nós morávamos no mesmo prédio e ainda hoje moramos. Pelo menos os meus tios (7 dos 9 que falei, o outro mora pertinho) e o meu pai moram no mesmo prédio. Passei trinta e seis dos meus trinta e oito Natais e muitos Réveillons com essas pessoas. Nós nunca nos desgrudamos.

Sim, nós já brigamos. Sim, não temos as mesmas afinidades com todos e não agimos e nem pensamos em uníssono. Seria impossível e certamente seria um tédio. Viva as nossas diferenças!

Não costumamos falar sobre isso, mas tenho certeza de que todos devem pensar mais ou menos assim, que somos pilares uns dos outros. Mesmo que alguns não se vejam quase, mesmo que a vida tenha desgastado um pouco aquela espontaneidade infantil, mesmo assim, a gente continua vivendo um em relação ao outro de certa forma.

Muitas vezes me pego com uma dúvida política e ligo pra um, outras vezes, um outro que tem um gosto musical bem parecido com o meu me manda uma música que ele ama pra eu conhecer e vice-versa. Tem o pra quem eu pergunto sobre carro e os que eu pergunto sobre como baixar um filme na internet. Têm os irmãos tecnológicos, tudo relacionado ao mundo digital que eu não sei, eu corro pra eles. Tem uns que parecem irmãos, que a gente pode falar até dos medos e das fraquezas. Por vezes, eu escrevo algo e é como se eu tivesse querendo falar pra uma prima, ou um primo e muitas vezes fico receosa do que vou escrever com medo do que eles vão pensar de mim (sim, eles também me empatam criativamente, rsrsrs). Tem prima que compartilha a praia, a outra com quem compartilho a curiosidade pela ancestralidade, outra pra falar de TUDO e uma pra dar carão. Tem o que toca piano e eu escuto daqui de casa. Têm os que sempre dançaram valsa comigo nas festas importantes da família, tipo bodas dos nossos avós, e variavam entre dois, a depender da minha altura na época, com quem eu regulava mais. Tem a que me chamou pra ser madrinha da filha dela. Tem um que é tão sangue bom que basta ele estar por perto. Têm as que marcaram fortemente feito tatuagem porque estiveram em todas as fases e quase todos os dias. Têm as que eram mais distantes e hoje se tornaram melhores amigas, têm umas que fui perdendo o convívio, mas sem nunca perder de vista e nem perder o carinho. Têm os que nunca saíram de perto e têm as que a relação sempre foi a mesma: sempre meio perto e meio longe sem jamais eu saber por quê. Mas não me importa, estamos juntos de alguma forma.

É como se a gente orbitasse em torno de um centro expandido, enorme, que leva um pra cada lado, mas que, de algum jeito, nos faz estar perto.

Com essa pandemia, agora, neste sábado à noite (esta crônica foi escrita dia 19/09) em que me vi num estreito percurso do quarto de TV para o meu quarto, depois de ter passado uma parte da tarde onde nós 26 e mais uma ruma de primos dos primos e tios, amigos passamos a infância e parte da adolescência – na Prainha – após ter estacionado o carro na garagem da casa de praia da minha avó e ter olhado pra dentro da casa e visto um vazio – não fiquei triste, na verdade, me lembrei de quando povoávamos aquela casa de não sobrar espaço – após ter recebido um whats app do primo que compartilha músicas, depois de tudo isso… Pera, vou mudar de parágrafo, esse ficou grande.

Depois de tudo isso me deu uma saudade danada deles. De todos eles, de cada um deles. Somos 14 mulheres e 12 homens e isso não importa, mas como o plural vai pro masculino e aqui eu não quero problematizar, não agora, pois eu sempre quero, queria deixar claro que somos plurais. E como somos.

Pois bem, me deu uma saudade deles e uma raiva dessa pandemia. Não que eu fosse estar com os 26 agora, a gente consegue isso uma vez por ano no Natal e outra vez a cada dois ou quatro anos quando fazemos uma festa chamada “primofest” que é uma das festas mais legais de eu ir. Só nós e os maridos e maridas. É um barato.

Não que eu fosse estar com todos, mas eu poderia estar com alguns. E poderia ter estado em outros dias com outros tantos. E o meu aniversário foi quinta-feira e eu estaria com grande parte deles aqui comigo.

E me deu uma saudade danada dos que eu me afastei porque a gente vai tomando forma, tomando gostos que divergem e a gente acaba se deixando levar pelos novos caminhos e cada um segue o seu.

Mas, como eu disse, a gente orbita um grande centro. Que já foram fisicamente os meus avós e hoje são em memória. Meus avós magnetizam a gente até hoje, eu penso.

E a casa de praia da vovó hoje me trouxe toda a minha gente de novo. Gente que me constitui, gente que Freud às vezes manda a gente se desprender pra poder construir o nosso próprio caminho. Acho certo. Mas mais certo seria se a gente se encontrasse todo mundo pra poder falar da gente, pra poder a gente se (re) conhecer, a gente saber o que cada um se tornou a partir daquele “big ben” inicial da nossa infância quando éramos quase um de tão juntinhos que andávamos.

Da explosão certamente carregamos fragmentos nossos. Sou formada por muita coisa e também pelos 26. Como se 26 fossem pessoas e fosse um agente catalizador do que nos tornamos. Mesmo discordando, mesmo não nos vendo sempre, mesmo afastados e muito pela pandemia, mas, se dúvida, sempre nos orbitando.

Saudades de vocês, primos.

Vamos marcar um primofest pós vacina?

8 Comentários

  1. Lucia marques

    sensacional……adorei…tb venho de uma juncão de familias e é muito bom esta convivencia. muitas histórias…recordações maravilhosas….🥰

    1. Luciana Targino

      São as melhores recordações, né, tia? São pedaços nossos, trazem a gente também na memória. Beijo com carinho.

  2. Stella Targino

    Oi Luze!!!!

    É isso ai! Esses 26 se amam muito, com todas as afinidades e diferenças! Temos raizes e laços fortes, que vem dos nossos avós! E esses laços nos “prendem”, no bom sentido! E é bom que fiquemos ai bem “presinhos e juntinhos”, mas ao mesmo tempo livres p escrever cada um a sua historia. 😘😘

    1. Luciana Targino

      “Liberdade é a gente ter alguém pra sem prender”. Essa frase não é minha, mas peguei pra falar disso que você falou. Muito bom ter gente a quem a gente se sente coctada, pertencente pro resto da vida. Beijo prima amada!

  3. Leticia

    Lu, que texto lindo. Somos sim, 26, cada um de um jeitinho diferente, com sua essência linda. Parabéns prima, por você conseguir juntar sentimentos, principalmente no meio a essa pandemia. Vontade de tá junto, de se aglomerar e sorrir, falar alto, debater, rir novamente…. beijo 💋

    1. Luciana Targino

      Ai, prima, vontade e saudade disso tudo, viu? Falar alto, rir… É com a gente mesmo. Beijo imenso e até breve. Obrigada pelas palavras e carinho.

  4. Marcia Sidrim

    Que sensibilidade!! Maravilha de texto! Amei, me identifiquei com cada frase. Sou uma dos 26 primos ❤. Parabéns Lú pelo dom das palavras!!

    1. Luciana Targino

      Prima querida, você faz parte desse núcleo tão importante que eu tenho, que a gente tem. Obrigada, pelo carinho de sempre, pela parceria de vida. Bjs

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