curriculum mortis

Curriculum Mortis

Não sei você, mas das coisas que eu mais tenho repulsa na vida são dos processos de seleção. Só de falar em RH de empresa já me dá nos nervos. Nada contra os profissionais de RH, mas bem que eles podiam melhorar esses processos. Lembro-me de mim em salas fechadas com um monte de gente fazendo uns trabalhos bem idiotas, sem saber o que cada uma de nossa fala, ou não fala, poderia estar repercutindo na cabeça daquela pessoa disfarçada de simpática e gregária, mas que, no fundo, tava ali só de olho nas nossas derrapadas, a pessoa do RH.

Lembro também de outra empresa na qual tivemos de entrar dentro do açude, ficamos todos molhados, e eu sem poder desistir, pois tinha de dar exemplo pros demais. Melhor seria se eu estivesse ali tentando ensinar à minha equipe que reconheço e valorizo os trabalhos em equipe, mas que, antes de tudo, a gente precisa se respeitar como indivíduo. Coisa de amor próprio mesmo.

Posso estar exagerando, mas que eu acho uma chatice e um besteirol alguns processos de seleção, isso eu acho. Aliás, tem tanta coisa que poderia melhorar numa empresa… Mas não é minha área – grazadeus – e nem vou me meter nessa seara, mesmo já me metendo (rsrs).

Acontece que, há alguns meses, li um texto do Leandro Konder, de 1983, chamado “O Curriculum Mortis e a Reabilitação da Autocrítica”. O texto (que você pode ler aqui) fala justamente dessa necessidade e urgência exigida pela sociedade de sermos melhores, vencedores, infalíveis. Quando vamos a uma entrevista de emprego, a gente se esmera pra mostrar todas as nossas conquistas, vitórias, como conseguimos reduzir os custos sem cair em qualidade – e, claro, sem contar que dobramos o trabalho do Fulano sem aumentar um centavo no salário… Mas isso não conta, né? Interessa a quem? Só à família dele mesmo, mas esta é a última parte considerada no business.

Voltando ao texto – eu sempre divago quando o assunto é “mercado”, “dia útil”, “sucesso”, horário comercial, “direito de viver além do trabalho”, “liberdade”, etc. Tá vendo, já divaguei de novo.

Konder defende que o importante mesmo, o que nos constrói, o que nos torna fortes e capazes, o que nos faz aptos é muito mais do que as conquistas. São as vezes que a gente quebrou a cara, deu prejuízo, errou, deixou o bolo desandar, comprou além do que precisava e o passivo ficou altíssimo, investimos demais em ações de uma empresa que, um mês depois, mostrou-se a mais fraudulenta de todas e os papéis despencaram. Os exemplos são meus, mas o que pretende o autor alertar que o Curriculum Mortis diz mais da nossa vida do que o Curriculum Vitae.

Na nossa sociedade, é como se o passado e as nossas grandes derrotas só servissem de obstáculo para dar luz às nossas vitórias e não como simplesmente testemunha do que de fato nos tornamos, do que nos constituímos, nosso lado humano.

Olhando assim parece até prefácio daqueles livros de auto-ajuda que nos ensina como aprender com os erros, como sobreviver à crises, etc e pode ser um pouco disso mesmo, mas é mais.

Seria menos letal se pudéssemos nos observar e sermos observadas (os) com o que de pior nós temos, desse modo, talvez não nos deixássemos deslumbrar por promessas de “mitos” salvadores. Ninguém é, ninguém tá livre da sua pior parte e ela, esta parte, vai aparecer, e é logo, não demora não.

Confessar o coeficiente de fracasso da nossa existência é se deixar perceber como frágil, como preguiçosa, como medrosa, receosa, assustada, dramática, enfim, deixar-se perceber como humana. Tudo isso deveria vir primeiro no currículo, antes mesmo das vitórias, pois, se elas aconteceram mesmo você tendo sobrevivido a si mesma, elas devem valer muito mais.

Se eu fosse contratar alguém pra trabalhar comigo, a primeira coisa que eu faria era negociar as horas livres no meio da semana. Tipo, quarta, depois das 14h, você não volte mais aqui na empresa. Vá resolver tudo o que precisa, ou vá tomar um banho de mar. Segunda, chegue 10h que é pra seu domingo não ter que acabar depois do Fantástico. E, ah! buscar filho no colégio é sagrado, viu?

Iria por aí, na contramão do que se espera de um profissional, mas do que existe no humano, na pessoa, em mim e em você.

Bora trabalhar?

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