direito de ser criança

Pelo direito de ser criança

Como ainda estamos em Outubro, acho que posso publicar esta crônica que escrevi para o VI encontro do coletivo Com Escrita Com Afeto. É dos temas mais importantes, a meu ver, e eu espero você nos comentários pra gente falar sobre isso. Segue.

Pelo direito de ser criança.

“Cada vez mais eu tenho olhado para as crianças e, de certa forma, tenho me solidarizado com esta difícil fase das nossas vidas.

Difícil? Questionarão muitos. E eu repito: dificílima.

Pra começar, de cada dez palavras que proferimos a uma criança, cinco delas são “não” alguma coisa, tipo: não pode, não vai, não pegue, não coma, não seja… Das outras cinco que restam, três delas não negam, porém coagem, que é a palavra “vá” vá escovar os dentes, vá dar um beijo em todos os adultos da festa (pobres crianças), vá se arrumar pro inglês. Sobram duas que, a depender da sorte da criança, no seio de qual família ela nasceu, ela ouvirá os tais elogios.

Exageros e brincadeiras à parte, penso que é mais o menos por aí.

É que é difícil mesmo, ainda que sem filhos, eu sei da dificuldade de uma mãe ao tentar educar seus filhos dentro dessa instituição chamada sociedade e que define – do dia em que você nasce ao dia de sua morte – quem você deve ser, como deve ser, com quem deve estar, do que pode ou não gostar. Define também a cor do cabelo certo, o tom de pele certo, a grana que você deveria ter, as horas a trabalhar para ser considerada alguém bem sucedida e, assim, vai moldando um aglomerado de gente que pensa estar seguindo a “cartilha” certa (ops, falar de cartilha nesses tempos está bem complicado, umas são inventadas pra apavorar a população, outras são censuradas porque apavora a manutenção do sistema, enfim, mas cartilha que eu quero dizer só quer dizer mesmo uma cartilha), pois bem, a cartilha certa que já veio toda moldada pra nós seguirmos sem precisar pensar, sem precisa questionar, sem precisar transformar porque, realmente, essas coisas costumam dar muito trabalho.

A palavra “Infância” vem do latim e significa “sem fala”, sendo que o período da infância vai dos zero aos onze, doze anos e até aí ela, a criança, já falou foi muito, ou, ao menos, tentou. O conceito de infância que conhecemos hoje é fruto de constantes transformações sociais e políticas. Até o século XII nem existia a infância, as crianças eram consideradas adultos incapazes. No século XIII é que foram entender que a criança era um ser diferenciado, mas compreenderam-na como uma página em branco, que deveria ser doutrinada em tudo. Só séculos depois é que a criança ganhou um lugar especial na sociedade, sendo reconhecida a forma como ela apreende o mundo e dos cuidados especiais que necessitam.

Sim, contada deste modo, parece mesmo uma evolução do conceito, mas não nos esqueçamos, nunca nos esqueçamos, de que tudo o que é definido pela sociedade tem um fim político, tem um fim econômico, tem um fim, de alguma forma, de manutenção de “esquema”. Até me arrisco a dizer que essa compreensão da criança como página em branco ainda esteja em voga e que, nós adultos, todos crianças mal resolvidas em um ou outro, ou vários aspectos da vida tentamos preenchê-las dentro de um formato que também nos foi imposto, mas isso é tema complexo demais pra um domingo na praça. Falemos disso outro dia. Rsrsrs

Dia desses ouvi uma mulher nascida em 1983 falando que ela foi criada por uma família na qual a criança só almoçava depois de os adultos comerem e repetir. Ela se orgulhava da fala e eu retruquei:

– Não é porque fizeram esta maldade com você que você precisa reproduzir esse comportamento.

– Não é maldade, é respeito.

(Disse-me ela depois do meu “tiro”. Ops, tiro não, também não).

– É maldade. (Falei)

Se ela foi dali pra terapia pedir socorro a Freud eu não sei, mas que bom seria se todos fossem, se todos tivessem acesso.

E assim a gente segue castrando as crias a nosso modo que, na grande parte das vezes não é má fé, são traumas, recalques, medos, dúvidas, destemperos, infantilidades – sim, nós vamos morrer com elas – paranoias, enfim, as crianças elas precisam, para ser alguém, passar por essa trincheira que é ser tutelado por um adulto que se forma tão cheio de falhas e que tudo o que ele precisa na vida é também de colo.

Lembro-me de pensar meio angustiada se todos os meus medos sumiriam no dia em que me tornasse mãe, porque eu não ia poder sentir essas coisas quando fosse criar alguém. Hoje, já estou bem mais tranquila quanto a isso, entendi que não, eles não vão sumir e, de alguma forma, a criança vai sobreviver.

Daí que me pergunto: como ajudar um ser a se formar sem atrapalhar tanto? O que a gente deve castrar e o que devemos deixar solto pra ela, a criança, se testar, se conhecer, enfim, “se ser”? Até que ponto a gente entende aquele micro ser como alguém inteiro, que já veio pronto, que tem vontades, gostos, sentimentos próprios e que a vida vai moldar de uma forma dura, insensível? Qual o nosso papel nessa jornada? Tornar mais fácil, ou dificultar que é pra “ela aprender”?

Martha Medeiros falou em uma de suas crônicas que percebeu com oito anos de idade que a fase adulta seria a melhor fase da vida dela e, segundo a autora, foi driblando a infância e a adolescência para constatar que, sim, ser adulta é a melhor coisa. Autonomia é luxo, minha gente, fazer as nossas próprias vontades também. Faltar um dia de aula? Dormir sem tomar banho? Meninos podem fazer ballet? Meninas podem preferir futebol sem que todo mundo se impressione? Imagina alguém regrando a vida da gente da hora que acorda a hora que vai dormir. Deve ser muito chato e, ainda assim, as crianças são ótimas.  

Por isso hoje meu texto vem em defesa delas, das crianças. Pelo direito de ser criança. Pelo direito de faltar aula de vez em quando, direito de dormir sem tomar o segundo banho de vez em quando. Pelo direito de jantar chocolate uma vez na semana, que seja, ou de passar direto pro leite, caso esteja sem apetite. Pelo direito de dormir na cama dos pais. Pelo direito de brincar até mais tarde. Pelo direito de perder a hora do inglês. Pelo direito de quebrar um vaso, derrubar um quadro com uma bolada no meio da sala. Pelo direito de rir bem alto e de falar alto sem que todos os adultos se incomodem.

E sim, e claro, e mais do que tudo, pelo direito à vida.

Pelo direto de ir e vir sem ser baleada.

Pelo direito de ser negra.

Pelo direito de ser a Ágatha. 

 

Ps.: Li esta crônica no último encontro do coletivo Com Escrita Com Afeto. Se você quiser conhecer quem somos, é só clicar aqui e aqui. Vamos adorar te ter por perto. 

Tenho mais crônica sobre infância neste blog. Se quiser ler, é só clicar aqui.

3 Comentários

  1. Daniela Araujo

    Que maravilha ter vc aqui, os textos são maravilhosos, o mundo infantil tem despertado o interesse para trabalhar com crianças, vc ministra algum curso? Obrigada!

    1. Luciana Targino

      Oi Daniela! Que bom que você gostou, fico muito feliz. Vou te mandar um e-mail pra gente falar do curso, tá? Bjs

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