Estranhamento
Estranhamento: Fonte: http://soturnaprimavera.blogspot.com.br/2010/07/o-silencio-de-um-homem-so.html

Estranhamento

Paulo estranhara tudo.

Desde que voltara da vida a dois, tudo era novidade na solidão.

Não que o novo lhe surpreendesse, tudo era idêntico ao que fora a vida inteira. Não que o novo lhe excitasse, sua vida seguia monótona. Não que essa revolução tivesse lhe causado um ganho, Paulo só via mesmo a mesmice.

E era a própria mesmice que causava o estranhamento em Paulo.

Como tudo poderia ter permanecido tão igual enquanto ele se transformava mundo a fora, anos a fio? Como o mesmo pode parecer tão intacto se ele já não era mais Paulo há tanto tempo?

No que se transformou o Paulo de outrora para não reconhecer mais nada do que era seu? Para não reconhecer-se em seu cenário tão cotidiano?

Paulo virara do avesso e não se entendia nessa vida de ponta cabeça. Paulo tornara-se sua outra face. Ele era, agora, seu lado B.

Paulo sentia um estranhamento em tudo o que via, sentia, se lembrava. Gostava, por vezes, contudo, essa ideia de uma vida cíclica, em que volta a estaca zero, apavorava Paulo.

Como pertencer novamente, como voltar pra casa, como ser dos seus há tantos anos sendo alguém tão outro, sendo um ser tão novo, tão velho, tão novo?

Perdera-se, Paulo. Recuou mil vezes até se jogar no abismo do que era antes. Até se entregar ao que lhe era tão conhecido, tão familiar, mas tão distante de sua vida.

Tateando, procurava se encontrar naquele labirinto que tornara a sua rotina. Aos poucos, ia aceitando cheiros, sabores e lembranças do seu passado.

Com o tempo, passou até a reconhecer-se em lugares, amores e dores. Paulo lembrou-se de si.

Viu que o que ganhara em todo esse tempo foi uma grande perda.

Perdera-se de si. De sus gostos, suas crenças, suas mandingas, imagens manias… Quais eram mesmo as suas esquisitices?

Do que era mesmo que gostava de fazer em seus momentos de nada? O que ele lia, o que comia, como agia, o que pensava e o que sentia esse Paulo que foi tão ele por tantos anos?

Quantos anos?

Paulo renasceu. Voltou ao berço pra voltar a si.

Buscou abrigo no seu pouso mais firme na sua rocha mais certa, no seu caminho mais claro.

E caminhou. Na jornada, encontrou os mesmos obstáculos de sempre, viu-se perdido como sempre esteve, viu-se assustado com tudo o que já tinha sido.

Viu que os medos se repetiam, que os estranhamentos eram os mesmos, que o coração angustiava igual fazia enquanto estivera fora e pensava que retornar seria calmaria.

Não seria. Jamais.

Calmaria é morte. Vida é turbulência.

A tormenta de Paulo estava nos quatro cantos, não do mundo, mas de si. Paulo nunca parou pra se perguntar, pra se conhecer, pra se responder. Paulo só fugia dele mesmo.

Lá longe, pensava Paulo, estaria sua cura para um buraco que nunca fechou. Intocado, iludia-se achando que se protegia dos fantasmas do mundo. Do outro lado, estaria sua paz.

Não, Paulo, nunca é lá que está o que realmente a gente veio buscar.

Tudo está aqui, tudo sempre esteve aqui, bem perto, do lado, bem dentro de ti.

Estranho, não?

2 Comentários

  1. Vitoria de Morais

    Já dizia os formalistas russos que a Literatura é capaz de causar em nós, reles mortais, esse tipo de estranhamento que Paulo sentiu… rsrs Texto ótimo, Lu! Bjs

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