Favela: a taça é de quem?

Assistindo que eu estava à minha novela, naquela horinha do dia que paro de pensar em coisas (des) importantes pra me dedicar apenas ao que me interessa no horário das 20h: Marcos (Rômulo Estrela) e à Paloma (Grazi Massafera); eis que me entra um comercial da prefeitura de Fortaleza – ou do governo do Estado do Ceará, não deu pra fixar – muito colorido, muito feliz, saudável e cheio de jovens esportivos jogando bola comunicando um campeonato de futebol em Fortaleza. O nome do torneio?

TAÇA DAS FAVELAS

Na mesma hora me soou como coisa estranha, me gerou um desconforto, um ruído que até agora chuta aqui dentro a ponto de virar tema desta quarta-feira crônica.

O conceito de Favela é o de construções precárias, sem saneamento básico e, muitas vezes, sem energia elétrica “legalizada”, de locais com risco iminente de desabamento – por não haver um cálculo de engenheiro que garanta àquela lage – onde se amontoam famílias imensas, estas, às quais, o Estado não dá conta.

Favelas são construídas à revelia da condição mínima de dignidade para uma moradia, se erguem na contramão do bem estar e são lotadas bem longe dos direitos humanos. Pessoas que não têm onde morar, essas por muitos chamadas de vagabundos, essas pessoas que sustentam a família de cinco filhos com um salário mínimo, pois é, estas pessoas são as que constroem e moram nas Favelas.

É claro que não estão ali porque querem. É óbvio que ninguém escolhe morar em favela, apesar de que, diante da precariedade que o Brasil as impõe, ter um barraco pra chamar de seu pode, sim, ser o maior sonho de consumo de alguém. Almejar uma casa minimamente confortável e segura em algum lugar que não seja a três horas de distância do trabalho não deve nem passar pela cabeça de alguns nesta nossa realidade.

Não há emprego, não há um salário que permita, o auxílio que chega – quando chega, e com muita má vontade e muito precariamente – não dá nem pro início. E o Estado, que deveria se importar, não se importa e, pelo visto, anda legitimando a sua incompetência de seu descaso.

Desde o fim da escravidão, sem terem pra onde ir, sem nenhuma instrução ou apoio da princesa que assinou a Lei Áurea e de mais ninguém, sem receberem nenhum punhado de terra às quais fertilizaram com suor e sangue, o negro foi se empilhando morro acima, quase que uns em cima dos outros em casebres que, castigando quem já foi castigado por gerações, costumam inundar, trazer doenças de ratos, odores de esgotos a céu aberto e desabar em dias de chuva forte. Levam tudo de quem não tem nada.

É isso que é Favela.

Favela deveria ser um estado de transição, no máximo. Todo morador de favela deveria poder contar – e rápido – com uma moradia segura e digna ali no lugar onde reside o seu barraco.

Mas a lei para os mais pobres parece atuar somente pra punir, na hora de prender, só na hora de desalojar o morador da favela porque ali a ocupação é ilegal, ou porque vai passar uma via, ou simplesmente pra “limpar a paisagem”. Para isto, o atual prefeito do Rio de Janeiro sugeriu passar uma demão de tinta na parte mais baixa da Rocinha, àquela que dá pra rua e o turista vê quando passa.

Quando a prefeitura de uma cidade e um governo de um estado vêm em um veículo de massa promover um campeonato cujo nome legitima a existência de favela no local, me parece uma tentativa de expiar culpa, de dar pão e circo para tapar com a peneira um sol que insiste em queimar – o morador da favela, claro.

Para ficar claro, é óbvio que a prefeitura e o governo do estado deve apoiar, a questão em discussão é a contradição: como você apóia algo que não deveria existir e a responsabilidade disso é sua?

Parece confuso. E é. Mas não deveria ser.

Para serem atletas, senhor prefeito, governador, presidente (este último realmente nem se importa), esses jogadores precisam de condições mínimas de sobrevivência. Não podem correr o risco de pegar uma leptospirose, ou doenças oriundas de esgotos que passam a céu aberto em frente a seus barracos. Atletas precisam de um teto que aguente a chuva, de água limpa e de comida na mesa. Atleta, e nem ninguém, pode viver em condições insalubres, em condição de “favelados”.

Desejo muita sorte aos jogadores neste torneio. Aos senhores gestores, desejo vergonha na cara e trabalho pra que, no ano que vem, o nome do torneio mude para: TAÇA DAS CASAS PRÓPRIAS COM MORADIA DIGNA.

Apita o juiz. Começa o jogo.

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