maldade em pessoas de bem

Maldade em pessoas de bem, pois então…

Eu podia (talvez devesse, talvez não, sei lá) falar de política aqui, afinal, ontem eu resisti bravamente, com estômago e tudo, ao Jair – Não consigo escrever aquele sobrenome que sempre me cai como um soco no estômago – falando por uma hora mais ou menos no Roda Viva.

Eu podia (talvez devesse, ou não, não sei) ficar relatando aqui os absurdos que ele mencionou sobre assuntos tão caros para nós, que são: Ditadura Militar e Escravidão. Assim com letra maiúscula mesmo, devia ter escrito em caixa-alta que era pra soar como um grito pra que nunca fosse esquecido, muito menos desdenhado como foi.

Eu podia aqui ressaltar (talvez devesse mesmo) que o que mais me incomodou na fala do candidato não foi exatamente o que ele disse, e olhe que isso me incomodou muito, mas as caras, o deboche, o sorriso de quem não entende do que se está falando e, por isso, desdenha. Reações que só observo nos covardes ou nos muito, mas muito infantis. E não estou falando, nem poderia, das crianças, porque entre ser infantil e ser criança há anos de experiências. A última é muito mais evoluída.

Mas eu vim aqui pra falar da MALDADE. Bem grande assim, em caixa alta, que é pra soar como grito que é pra ver se  gente se toca. Tema o qual quero pesquisar num mestrado ou doutorado em breve.

A pergunta é: O que faz a humanidade agir/reagir com maldade, essa mesma que habita os cidadãos de bem? 

Minha inspiração vem dessa defesa ferrenha a este candidato à presidência, o qual tenho dificuldades em citar o nome.

Antes de mais nada, um adendo: não estou dizendo que os eleitores do Jair são pessoas más (pelamordedeus!!!). Eu até consigo entender o que motiva esse voto, que o “combate à violência” com tamanha truculência. Mas é aí que me intriga, o apoio à truculência e a crença de que o sr. Jair é o salvador da pátria. O que se teme na realidade? O que de fato ameaça tanto, além do noticiado, que evoca essa crueldade nas pessoas?

Ó, senhor cidadão, eu quero saber, eu quero saber.

 Aliás, eu nem entendo como alguém, do alto de 2018, consegue defender com tamanha paixão e convicção qualquer candidato que seja. Depois da decepção de Lula, ainda com o mensalão – nem vou entrar na questão mais atual, porque é tema pra muita discussão e não cabe aqui -, não consigo alcançar o que faz as pessoas se inflamarem com políticos.

Mas a maldade é meu tema, essa truculência, esse compartilhamento de mensagens com covas que diz: aqui é o lugar de bandido pra Bolsona… 

Sim, eu sei, todo mundo tem uma maldadezinha por dentro, mesmo as pessoas boas, e tô a fim de entender que maldadezinha é essa no caso específico do meu objeto de estudo que eu nem sei se vou estudar mesmo porque talvez me dê preguiça… Talvez estude a maldade sob outro aspecto. Mas deixemos a tese de lado e voltemos à crônica.

É que anda me impressionando como alguém pode votar em um ser humano que claramente evoca a violência como bandeira política e diz que não entende nada de economia e educação. Um ser humano que entende o período mais violento que já vivemos, o da Ditadura Militar, como algo necessário e faz pouco caso dos presos/torturados/mortos políticos. Alguém que, em pleno 2018, estranha chegar em casa e ver o filho brincando com uma boneca e achar que isso pode ter sido influência do colégio e condenar a brincadeira, como se isso pudesse fazer dele um gay, como se ser gay fosse algo absolutamente reprovável. Alguém que não quer nem saber da dívida do país com os negros filhos da escravidão e condena o sistema de cotas e fala que vai diminuir o seu alcance, ainda que as notas dos cotistas estejam se equivalendo, e até passando, a dos que estudaram em escolas particulares. Pra quem não entendeu, significa que o que falta, dentre outras coisas, é oportunidade… Sem contar que ele quer armar a população inteira sob a pecha de que armados poderemos nos defender. Agora, você imagine, num trânsito caótico, alguém te dá uma fechada, você tá num dia daqueles e num momento de raiva vai lá e atira. E seu tiro pega não no motorista, mas no filho dele de cinco anos que estava no banco de trás e você, como péssimo atirador que sempre foi e sempre será vai carregar pra sempre a morte de uma criança nas costas. E não venha me dizer que você SÓ VAI USAR A ARMA COM O BANDIDO porque o nosso superego não é tão disciplinado assim. Se você tem alguma dúvida, vai ler Freud antes de votar no Jair. Estaremos todos em risco, em muito maior risco. Leia Freud!

Tudo isso que eu citei acima, está aqui.

Eu poderia citar mais um monte de barbáries, mas meu estômago não aguenta e o parágrafo já está imenso e cansativo. Foi de propósito, porque cansa mesmo.

Antigamente um louco desses era ridicularizado pelo eleitorado. Era aquele candidato que, quando aparecia no horário político obrigatório, servia como uma pausa nas mentiras e a gente encarava como comédia, um meme antes das redes sociais, era hora de rir, tipo: “Meu nome é Enéas!” ou ainda “Eu sou João Oliveira, 70, Prefeito. Vamos cortar o mal pela raiz”.

Só que não é mais, a piada está sendo levada a sério e tem gente embarcando, cega, nessa onda. Me assusta, me apavora e, no frigir dos ovos, sofreremos todos a consequência.

Antes de mais nada, esta não é uma crônica de esquerda, muito menos é uma crônica apartidária e não política. Somos políticos desde a hora que acordamos ao momento que vamos dormir, desde se usamos canudinho e bebemos coca-cola até se não comemos carne vermelha ou nem derivados de leite. Estou no primeiro time, vergonhosamente, ainda não evoluí..

Deixei pro final uma confissão: Eu já pensei parecido com os eleitores de Jair, eu já fiz até campanha pro Aécio quando eu não entendia nada (mas, em minha defesa, eu soube reconhecer sua derrota. Veja a prova). E não entender nada é uma arma muito letal. Fui salva e salvei também pela leitura, pelo debate, pelo diálogo com pessoas de referências absolutamente diferentes das minhas. Ouvir, ler, refletir, repensar, discordar, voltar atrás, seguir adiante só que diferente me fez enxergar algo que hoje me parece tão óbvio: o próximo.

Tô longe de ser referência – talvez seja um pouco, talvez, não sei, mas busco aí o caminho do bem, um caminho que possa fazer bem à maioria e que todo o mal que eu cause se resuma a mim mesma. Um dia eu chego lá, talvez, nem sei. 

Por enquanto, seguirei na minha busca sobre a maldade em pessoas de bem, algo que não domamos, que vai além da percepção de risco real, que vai além do que manda a razão, que vai além dos valores que aprendemos em casa, enfim, que vai além, muito além…

Mas vai pra onde, senhor cidadão? Eu quero saber.

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