mudanças

Mudanças

2020 foi um ano em que eu e certamente você fomos passivas. Em quase nada pudemos escolher, foi a vida – e esse desgraçado micro ser – quem decidiu – e ainda decide – mais da metade do que vamos fazer desde Março, até hoje e além até chegar a tal da vacina.

Você tendo negado ou não a periculosidade da Covid-19, fato é que, sem sombra de dúvidas, ela atrapalhou a nossa vida.

No meu caso, tive de me desfazer dos meus planos para este tal ano, de fazer meu doutorado NO (lá dentro, morando lá) Rio de Janeiro, estudar e morar na minha cidade do coração. Com dez dias que havia me mudado – só dez, minha gente! – com dez dias eu tive de voltar pra Fortaleza e me confinar sem fim na casa dos meus pais (que é minha também, eu sei).

Como quem entra num mar revolto e leva um caldo atrás do outro, eu fui tocando, ou pior, bolando nesse ano tentando encontrar um respiro entre uma tsunami e outra. Tudo em vão, mas, fato é que já estamos perto do fim e o papai Noel já está nas vitrines.

Pois eu, num arroubo de tentar protagonizar alguma coisa neste famigerado calendário corrente, eu decidi mudar. Não, não essas mudanças bestas, mas uma MUDANÇA. Não um corte de cabelo e nem a cor, não fiz uma tatoo, nada disso. Eu resolvi mudar de endereço. Sair da casa dos meus pais e ter meu canto pra ficar tranquila de não passar o tal vírus pra eles, caso eu pegue essa desgraça. Sim, esse é o meu maior medo, contaminar meus pais.

Comecei o movimento de mudança há uns dois meses. Estranho que neste ano. os dias, os meses, tudo é meio enrolado, tudo é eterno e num instante, tudo parece março e já é quase novembro… Enfim, confuso.

Mas há dois meses eu comecei a procurar um ap. sem ao certo saber se eu queria mesmo me mudar. Sem saber direito se os motivos para tal mudança eram os certos, se eram fortes o suficiente para justificar o esforço, os gastos, etc. Conversa com um, se aconselha com outro, comunica a pai e mãe, que não gostam muito da ideia – nem um pouco, aliás, rsrs – faz várias conjecturas, fala com a analista e… De repente – que não foi nada de repente – acha-se o ap. que parece ser a melhor solução e, quase que num susto, já se está habitando a casinha nova.

Devo confessar, é uma delícia e dá um medo. É que mudar parece paradisíaco, traz muitas expectativas boas, mas a verdade é que mudar é desorganizar-se e desorganizar-se por livre espontânea vontade tanto dá medo como dá preguiça. Mudar de cidade, de casamento, de emprego… Mudar é difícil por mais deliciosas e fundamentais que sejam a mudanças. 

Eu sempre gostei de mudar. Sempre achei que tudo o que mudava na nossa vida vinha para o bem, era pra melhor, traria outras coisas e elas seriam boas. Contudo, é bem verdade que nos últimos anos eu fui perdendo o meu otimismo. Fui me deixando contaminar de Brasil, de tudo o que está acontecendo e, junto com o nosso país, eu fui adoecendo.

Sinto muita falta do tempo em eu achava a felicidade ao alcance da mão e que a tristeza é que era a inconveniente. Hoje penso que a felicidade precisa ser conquistada todo dia e que, na verdade, ela está nos detalhes, num encontro com meu sobrinho, minhas sobrinhas, num vinho com meus pais, num banho de mar, num reencontro com minhas primas, numa ligação com uma delas no fim da noite meio que do nada, mas que nos renderam vinte minutos de tentar botar em dia um papo de sete meses. A felicidade está em programar o depois daqui, está num olhar, numa palavra de apoio, num amigo que te liga de longe, em saber dos planos da família, num sushi à distância, um happy hour no play do prédio com pouca gente, mas a melhor gente pra se estar junto nesses tempos e, pra mim era motivo de muita alegria, encontrar quem eu não via há meses na garagem do prédio.

Daí que eu divaguei falando da felicidade e me perdi na mudança. Mas quem está encontrado em 2020 que me atire a primeira pedra.

Pois eu me mudei. Para um bairro distante do dos meus pais, pois foi a melhor proposta que achei, justamente por ela poder ser temporária, pois, num ano tão ruim, nada pode ser tão definitivo. E ainda que a frase esteja cheia de “pois” como quem tenta explicar essa arrumação pra si mesma, eu me permiti mudar sem certezas, tentar algo novo sem estar cem por cento convicta como gosto de estar quando tomo decisões.

Munida de coragem e com os medos na bagagem, eu vim. Pra um canto que chamo de meu, pra um lugar que, não sei por quanto tempo, fará parte de minha história, que vai me acompanhar nessa jornada estranha e difícil que está sendo tudo.

Recentemente eu aprendi que os franceses têm a expressão “chez moi” para designar “lar”, que muita gente se confunde com “casa”, mas não é. Lar é onde a gente se acolhe, onde a gente se sente em casa, mesmo não sendo nossa, é onde o coração acalma, onde nos sentimos pertencentes, seguros e, na maior parte do tempo, espero, felizes.

Pois é daqui, desse meu novo lar, daqui, dessa alma que eternamente busca um colo, um canto, um porto. Daqui, desse apezinho mais charmoso do Cocó, é daqui que eu espero trilhar um rumo, um atalho, um desvio, como naquelas estradinhas lindas que, por vezes, não dão em lugar nenhum, mas vale pelo percurso. Daqui que pretendo, mesmo com medo, me lançar no mar de novo.

Não estou conseguindo encerrar a crônica porque mudança não é nada definitivo, mudança é colocar-se em transformação, é colocar-se no gerúndio, é permitir-se um passo em falso, um arranhão, mas é deixar-se invadir pela vida, é conhecer gente nova – talvez não pelo distanciamento. Dá pra fazer amizade com máscara e a um metro e meio? – deixar-se admirar outro cenário, é se por em desconforto buscando aconchegar-se.

Tenho fé.

“Vai dá certo”

2 Comentários

  1. Lucia marques

    oi Lu….eu sou a louça das mudanças…. acredito que qdo não estamos acertando o gol….kkkk….é hora de mudar…se é que vc entende…kkkk….fechar círculos sempre dar certo…. bons momentos virão….boas energias….bons pensamentos…..tudo novo tem otimo cheiro…. desejo muitas alegrias…..envio muitas energias positivas…. acredito sim em mudanças…..DEUS TE ABENCOE NESTE NOVO MOMENTO.😍🥰

    1. Luciana Targino

      Minha tia querida, muito obrigada! Recebi daqui sua energia boa e alegre. Sim, estou achando que será um momento ótimo. Beijos com saudades.

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