Música para os nossos olhos

Fomos salvas! Fomos todas salvas pela a minha tia. A crônica de hoje não é polêmica, não fala de política, nem de feminismo, nem desses assuntos tão importantes e que exigem tanto de nós. Até porque neste momento em que você me lê, eu tô em algum lugar da França tomando uma champagne, comendo um queijo, ou vendo algum monumento que deve estar me emocionando… Não quero treta juro.

Pois bem, minha tia nos salvou das confusões contemporâneas do pensamento quando me perguntou porque eu não falo de música, já que é um troço que me toca tanto que me comove tanto. Fiquei pensando por quê, já que realmente a música exerce um fascínio tão bom. Eu já falei de música aqui, mas posso falar muito mais se você quiser, posso até cantar, inclusive, coisa que amo fazer em todas as horas do dia.

Desafio feito, desafio aceito. Ainda nem sei  como que eu vou abordar esse tema que pra mim é sagrado feito a religião é para muita gente. Música é a minha missa, a minha confissão, meu pecado e o pagamento deles. Música é meu purgatório, e minha ressurreição. Música é glória.
 

Mas é um negócio tão meu e tão inexplicável que eu não sei se vou conseguir fazer jus à ela aqui.

Esta tia ficou impressionada quando, numa festa de família, me viu cantar TODAS as músicas de rock e pop rock que a banda entoava. Ela achava que eu era do samba (e sou!). Era o bloco do eu sozinha, porque no início da festa ninguém dançava. Já eu, ainda com o joelho em recuperação (nuca mais falei dele, né? pois o bichinho ainda tá penando), mal consegui dançar, me balançava sem conseguir parar desengonçadamente. É que a música me sacode alma adentro. Música é movimento.

Mas não é qualquer uma. Eu já falei que música pra mim é sagrada e música ruim me faz um mal tão imenso que não consigo fingir que tá tudo bem. Àquilo vai me deprimindo, me deixando com uma energia péssima… Vou-me embora e ligo o meu som. Música é autoconhecimento. 

Acho que esse apego vem de berço. Papai é assim também. Papai embarga a voz cantando, papai é capaz de ficar horas sentado na mesma posição ouvindo uma música clássica e cantarolando suas partes preferidas. Sempre emocionado. Música é comoção.

Música é pra quem tem fé. E fé é sacrifício. quantas e quantas vezes a gente não fica ouvindo àquela canção dolorida, que nos remete ao que não temos mais e não conseguimos mudar a faixa?  Ou àquela canção no vinil que seu avô amava e nenhum dos seus amigos sabe que ela é uma das suas preferidas só porque você se lembra dele tentando fazer você gostar daquilo. À época, você achava um saco, hoje, daria a vida para uma tarde ao lado daquela vitrola. Música é saudade. Música é afeto.

Música tem disso, essa coisa de cantar as nossas lembranças, sejam as que doem, sejam as mais as mais alegres, é como se algumas músicas carregassem com ela, a vida toda, um pedacinho da nossa identidade,do nosso DNA. Música é CPF.

Sabe quando você está  lá na Thailândia e no restaurante começa a tocar “”Garota de Ipanema”? Você imediatamente dá um sorriso, olha pro garçom e faz sinal de legal, conta que é lá do seu país e, por àqueles quatro minutos, se sente em casa? É que música é colo.

Eu me lembro perfeitamente da voz da minha mãe cantando “Mãe menininha” pra eu dormir, e a me dizer que minha avó adorava essa música. Era a memória de minha avó em minha mãe criando memória em mim. Música é conexão.

Lembro-me também de um ex-namorado, na tentativa de reatar nosso amor que não estava mais, gravou um CD com meu novo gosto musical – que começara a se apaixonar por Chico, Vinícius, essa galera aí – e com o gosto dele pra gente ouvir no carro. Achei das declarações mais lindas de amor que já vi. Música é amar e acolher as diferenças.

Lembro-me de outro namorado que gravou um CD inteiro com canções que diziam dele e da nossa história para poder terminar comigo depois de uma sacanagem que eu fiz. Música é despedida.

Música é também – principalmente – encontro, é festa, é alegria, é afeto. Música é protesto, é grito, é revolta. Música é delicadeza.

A música mexe com o nosso sensível que muitas vezes temos vergonha de externar. Tem música que nos canta pra alma, que ecoa o sentimento lá de dentro onde poucas pessoas conseguem acessar. Música é chave.

E eu sou refém feliz de música. Eu saio de casa pra ouvir música, muito mais do que pra paquerar, por exemplo. Eu vou a shows sozinha, eu vou a bares sozinha. Música  é companhia.

E assim eu sigo, movida à letras e melodias que me embalam vida afora. Canto, danço, subo em palcos imaginários e reais, me encanto. Sou carne, osso e canção. Música é vida.

E pra você? Música é o que?

Qual música mais toca você?

Bjs,

Lu

2 Comentários

  1. Renata sidrim

    Obrigada por atender a minha sugestão.
    A crônica está além das expectivas .adorei!

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