Ignorância por Nietzsche

Nossos graus de ignorância

Ignorância, “quais são os nossos graus dela?” pergunta-me um amigo, após ouvir a mesma pergunta com “rabo de ouvido” numa “padoca” em São Paulo.

Pergunta difícil, leitora (or) que nos remói sem quase encontrarmos resposta alguma. A começar pelo fato de que padecemos, nós seres humanos, de uma característica inerente à nossa condição por nascer: o egoísmo.

Sim, a gente sempre vai encontrar uma forma de justificarmos nossas piores atitudes em relação ao mundo ou a alguém permeados por ele, pelo egoísmo, esse olhar umbigo que nos cega para injustiças, para empatias e compaixões. Talvez aí esteja um dos importantes graus de ignorância, a este não saber, o egoísmo.

Atrelado ao egoísmo vem a teimosia. Certamente um desses graus de ignorância também. A partir do olhar egoísta pensamos saber o que é melhor pros outros, daí, passamos a teimar certos de que estamos com a razão, quando, na verdade, detemos apenas um único ponto de vista do fato: o nosso e, lembremo-nos, ele está sempre permeado pelo egoísmo.

Sigamos. Outro nível de ignorância é a falta de vivência. Não termos sentido na pele o que é, por exemplo, ser pobre, negro, mulher, gay, trans, enfim, qualquer circunstância que não tenha se abatido sobre nós, nos coloca em um grau de ignorância emburrecedor. Jamais poderemos dimensionar uma dor, uma angústia e um medo não estando na pele de quem de fato está no fato, logo, melhor não opinar, a não ser que seja a favor das causas. Não julgar já é um excelente sinal de inteligência.

Mais um nível para lista é a criatura se achar superior a outra pelo cargo que ocupa, ou pelo dinheiro que tem. Nietzsche já dizia “O poder emburrece”. Ignorância pura, além de falta de educação, desrespeito e preconceito. Não ter consciência de que não foi por mérito, mas por sorte que ela ocupa o cargo de presidente, enquanto o outro, ganhando infinitamente menos, ocupa o de servente é de um nível de ignorância estratosférico.

Veja bem que até agora não falei da ignorância por falta de estudo. Desde que a pergunta caiu sobre mim, em nenhum momento pensei que seria este o pior grau de ignorância, mesmo sabendo que a falta de estudo leva à falta de oportunidades, mas a ignorância pra mim tá muito mais nas pessoas que possuem estudo do que nas que não.

Você ter acesso aos livros, à filmes, teatros, a todo tipo de arte e cultura e, mesmo assim, continuar ignorante, continuar com olhar míope para os problemas do mundo, estar preocupado com a cor da roupa que meninos ou meninas devem usar, ainda tá achando que bandido bom é bandido morto, que não consegue fazer nenhuma correlação entre a escravidão e a favela, isso é que é ignorância, e esta ignorância é letal.

Me preocupa a “ignorância abastada”, essa que se acha e que não é. Essa sem conteúdo, mesmo tendo tido acesso a ele, essa que julga por aparência, essa que sente inveja. A ignorância que vem das pessoas que mais deveriam ser lúcidas, dos gestores que deferem normas e leis a partir de uma caretice, a partir da falta do olhar pro outro, a partir do que ele julga como certo e, por isso, é dado como certo.

Os graus de ignorância, a meu ver, passam muito mais pelo que não se quer saber, pelo “prefiro não saber” do que pelo que não se sabe. Pessoas que preferem acreditar no “é assim mesmo”, “foi Deus quem quis”, “a vida é assim” quando se referem a temas como a desigualdade social, por exemplo, essas pessoas são as que consideram mais ignorantes. 

E, pra encerrar, um pensamento “Nietzscheano” (acho) que corrobora com o tema e sempre me traz uma luz importante quando penso estar com a razão. O contrário da inteligência não é a burrice, mas as nossas convicções.

Então, fica aí a dica de quem sabe muito, mas que teve a inteligência maior de entender, feito Sócrates, que “Só sei que nada sei”.

Melhor viver, sentir, refletir, dialogar, antes de concluir. A conclusão pode ser também um grau de ignorância.

E você, acrescentaria qual grau ignorante aqui?

1 Comentário

  1. Marcos

    Brincadeira não, gente! Hoje só tem pérolas à altura dos escritores brasileiros, aqueles do Enem (vestibular):

    “… esse olhar umbigo que nos cega para injustiças, para empatias e compaixões. …
    Não julgar já é um excelente sinal de inteligência.”
    …, angústia e um medo não estando na pele de quem de fato está no fato…
    …a ignorância pra mim tá muito mais nas pessoas que possuem estudo do que nas que não.”

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