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Notas sobre a arte nesta pandemia

Bem, depois desses mais de 40 dias trancadx em casa, ou mesmo precisando sair para trabalhar – a você que está trabalhando, toda a minha gratidão, toda -, você já percebeu que sem a arte você já teria tido um surto.

Se você não tivesse um filme pra ver, uma música pra ouvir – as lives estão aí que não me deixam mentir – um livro para ler, uma novela, uma série, uma revistinha em quadrinhos, se você não tivesse acesso a nada disso, você talvez nem conseguisse ter chegado até aqui. Provavelmente teria saído correndo, em vão, no meio da rua buscando distração. Só que os bares estão fechados, as boates também, até algumas praias, você não pode viajar, não adiantaria dirigir seu carro pra lugar algum, muito menos se enfeitar inteira de grife, até porque, seus amigxs estão trancadxs, ou pelo menos deveriam.

Quem te salva nesse inferno no qual estamos amargando, além do Instagram, Twetter e Facebook – e lá também é possível encontrá-la – quem te salva é a arte. Então, se você é daquele time que apoiou o corte nas bolsas de estudos das humanidades, que acha que artista é tudo um bando de desocupado, que arte é mi mi mi, que ninguém precisa dessa sensibilidade toda. Se você é do time que crê num mundo sedento apenas de ciência para curar, da moral cristã para doutrinar e da força do Estado para “vigiar e punir” (aqui estou citando Foucault, escritor, filósofo francês), imagino que você já esteja reconsiderando seu praguejo contra os artistas e conseguindo ser um pouco mais gratx a esses “hippies” que estão acalentando seus dias difíceis.

Mas eu venho te dizer mais duas coisas bem importantes sobre a arte agora que seu coração já foi amolecido pelo filme do Almodóvar que acabou de reprisar aí no seu Netflix, ou que está cheix de coragem depois de maratonar “Anne with an E” e entender que mulheres sempre sofreram repressão do machismo, mas que graças às feministas feito a Anne nós pudemos gozar da liberdade, por exemplo, de usar calças; ou de se revoltar com o quão cruel uma religião pode ser com seu povo e estar loucx pra saber o que vem depois dos quatro episódios de “Nada Ortodoxa”; ou ainda, de ter achado interessante os filósofos pincelados por “Merlí” – reparou que o Guy Debord fala da sociedade do espetáculo e faz uma crítica à essa mania que a gente tem de se mostrar nas redes? -; ou, por fim, para esta crônica não ficar cansativa com tanto exemplo, enfim, de ter pego pra ler o livro do Caio Fernando Abreu que tá empoeirando desde o seu último aniversário quando seu (sua) ex te deu de presente porque achou que tinha tudo a ver com você e você nem tchun. Caio Fernando é de arrebatar, né, não?

Pois bem, eu venho te dizer primeiramente que toda arte é política – e isso quem disse foi o Rancière, outro filósofo francês interessantíssimo. O que você escolhe pra ouvir, pra ler, pra assistir, tudo isso, de certa forma, é a sua forma de existir politicamente no mundo e impacta não só em você, na sua “micropolítica”, mas também no seu país, no mundo na “macropolítica” (esses conceitos são da Suely Rolnik, escritora, psiquiatra, socióloga e professora da USP).

A arte não está ali perdurando e se reinventando desde sempre e para sempre- sim, ela vai te atravessar – só pra te entreter, ela também está pra te formar, pra te fazer refletir, pra te incomodar, pra te instigar, pra te fazer mudar – ou não – a arte, ela ajuda a te construir e a te conduzir. Antônio Cândido – escritor brasileiro, sociólogo, crítico literário e também foi professor – tem um ensaio maravilhoso chamado “O direto à literatura” no qual ele vai falar da importância da arte para a formação do pensamento crítico do indivíduo. Sim, é por ela que a gente passa a acessar o outro, o mundo e construir o nosso raciocínio.

Vamos a mim como exemplo para ilustrar a importância da arte na opinião do Antônio Cândido. Tenho 38 anos, quando eu tinha 9, o país estava saindo da ditadura militar. Não vivenciei nenhum tipo de repressão pelo regime, nem dava conta do que estava havendo, os “caras-pintadas” era só um monte de gente feliz com as bochechas pintadas de verde e amarelo. Pois bem, em 2003 eu fiz a minha monografia sobre a “canção de protesto”, logo, li muito sobre o regime ditatorial no Brasil. Li sobre as torturas, os exílios, as mortes. Li sobre o show opinião, li sobre o atentado na rua Toneleiros, li sobre as inúmeras canções alteradas pela censura, pois continham “teor subversivo”. Ouça o bêbado e o equilibrista do Aldir Blanc – que infelizmente perdeu pra Covid e a esta altura você também já deve saber que não se trata de uma gripezinha – ouça esta canção de Aldir para entender sobre o que aconteceu entre 1964 até 1989. 

Não precisei viver o período para saber dele e foi por causa da arte que não me tornei uma dessas pessoas ignorantes que foram a uma manifestação pedindo a volta do AI-5 recentemente. Foi pela leitura, foi pelo cinema, foi pela música que eu me salvei. Dica, leia “O que é isso companheiro”, do Zuenir Ventura.

Sim, a arte te salva da ignorância. A arte é o mais lindo atalho pra você se sensibilizar com o outro, ter empatia por alguém. Se você ler a Djamila Ribeiro, a Conceição Evaristo, a Carolina Maria de Jesus, você vai ver que, mesmo jamais podendo sentir na pele o que é ser uma mulher negra e pobre no Brasil, você terá um pouco mais de compaixão e cuidado com elas, vai olhar diferente para suas histórias, talvez reveja a sua relação com as pessoas negras e pobres. Se você se deixar levar, perceberá que existe uma relação direta entre o regime de  escravidão, as capitanias hereditárias e o lugar que xs negrxs ocupam hoje na sociedade, e o lugar que você ocupa e talvez você até ajude a melhorar a desigualdade social no país. Não seria lindo contribuir com isso?

Sim, a arte incomoda. Incomoda porque mexer no que está quieto na gente é desorganizador. Tem quem prefira não ver, não ler, não ouvir, não saber. Tem quem prefira viver anestesiadx, tem quem tenha horror ao “mal-estar” – e agora de novo estou usando um conceito da Sueli Rolnik – causado por um quadro, um documentário, ou até mesmo um comentário que um amigo que leu, viu, ou ouviu fez.

Viu? Quem se deixa atravessar pela arte tem muito mais chances de ser múltiplo, de se visitar em diferentes cenários e sensações, mesmo não saindo de casa, como é o nosso caso agora. Isso assusta, eu sei, mas é maravilhoso, vai por mim.  

Ah! Deixe-me esclarecer uma coisa. Onde tem “x” não é erro de português, é porque a nossa língua é machista e só generaliza a forma no masculino. Como toda arte é política, a minha também é e venho tentando reivindicar nosso lugar, o de mulher: na arte, no mercado de trabalho, no mundo.

Outra coisa, não fiquei citando um monte de referências de filósofxs, professorxs, escritorxs para parecer pedante, é para ilustrar que sem a arte não se produz arte, aliás, sem a arte, pouco se produz eu penso. Sem a leitura, eu não conheço, sem conhecer, eu não tenho do que falar, sem isso, eu não escrevo.   

Já escrevi demais. Certamente, além de me ler – o que me enche de alegria- você ainda tem mil coisas pra fazer enquanto essa pandemia nos agoniza e nos mantém em casa. Fique. Veja/ouça as lives da Tereza Cristina, leia Ana Cristina César, ouça Paulo Cesar Pinheiro… Se deixe afetar pela arte, se deixe incomodar, questione-se, reflita, tenha raiva, medo, se apaixone, se indigne.

A arte está aí pra te ajudar a ser humano

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