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O amor é a religião mais barata

Escrevo esta crônica ainda sem saber se deveria falar deste tema. Digo porque as palavras escritas elas dão margem à interpretação do leitor. Quando o texto sai de mim, ele nem é mais meu, ele é de quem me lê e o interpreta, logo, tenho medo da polêmica. Ando meio cansada de ser combativa, rsrsrs. Mas crio coragem e vou, até porque, já disse isso aqui no blog, não sou eu quem escreve, são as palavras que se escrevem em mim e pedem pra sair.  

Dado este enorme preâmbulo que deverá funcionar como um escudo do bem, vou focar no amor porque eu já postei que o tema seria esse, e, além disso, eu estou realmente impactada com o texto que eu acabei de ler. 

Susan Sontag, a autora, que trata do tema do “Autor como sofredor exemplar”. Ela se deteve aos diários do escritor italiano Pavese – o qual eu não conhecia – e seus relatos sobre amor, literatura, religião e suicídio. Sim, ele se matou aos 42 anos de idade. 

Das muitas frases do Pavese que me chamaram a atenção, essa do “Amor é a religião mais barata”, ficou ecoando aqui dentro de mim.

Eu tenho uma dificuldade imensa de acreditar em Deus. Parto do pressuposto de que, se ele existe, ele está sendo mal com boa parte da humanidade, e, como não consigo conceber um Deus ruim, eu entendo que ele não existe. Tenho mais dificuldade ainda com as religiões. Os cultos me incomodam, me assustam, todas àquelas pessoas num transe coletivo, orando, pedindo, chorando, repetindo àquelas frases ditas há séculos e mais séculos, pedindo um monte de perdão e agradecendo mesmo em meio à desgraça, eu não consigo. Me faz sofrer mais ainda quando eu escuto: foi Deus quem quis. Por que ele haveria de querer para uns e não para outros? Fico confusa.

Às vezes eu penso que foi algum trauma. Algo que eu possa ter visto na infância e me fora muito forte, ou a própria preparação para a primeira eucaristia que nos trancou numa sala e só nos liberou depois que repetimos um texto decorado. Cada um, quem não repetisse, voltava para decorar de novo. Lembro de pensar que nunca mais sairia dali. Decorei de um jeito que nunca mais esqueci.

“Senhor meu pai, eu pequei.
Estou muito arrependida e quero melhorar.
Ajuda-me a seguir os ensinamentos de Jesus.
quero viver sempre unida a ti e ao meu próximo.” 

 

Detalhe, eu só tinha 10 anos de idade.

Eu já tentei outra vez. Lembro que, aos vinte e pouquinhos, virei pra meu namorado da época e disse: Fulano, a gente precisa ir à missa. Agradecer, pedir, etc. Fomos. Íamos aos domingos. No primeiro, eu morri de sono, mas perseverei. No segundo, não parava de abrir a boca, mas continuei. No terceiro, nem me lembro se chegou ao fim da missa, eu virei pra ele e disse: – Vamos pra praia? Tá um dia lindo de sol e a gente aqui. Pra minha alegria, ele também topou. Ufa!

Repito, sei que estou correndo um risco enorme falando da minha dificuldade com religiões aqui. Mas, como parto do pressuposto de que as minhas leitoras são pessoas inteligentes e críticas, elas vão entender que a minha opinião pode não ter nada a ver com a delas e mesmo assim a gente pode continuar comungando de muitas outras opiniões. E que o confronto de ideias é o que leva a humanidade a evoluir. Dado isto, sigamos.

Eis que me deparo com a melhor definição de religião que já vi. A que deveria ser o fim de todas elas, muito mais do que Deus. Aliás, Ele, o Amor, é que deveria ser Deus, penso eu. Sim, algumas me dirão: Mas Deus é amor. Tudo certo, se você consegue sentir assim e praticar o Deus que existe em você com as outras pessoas, isso é lindo. Namastê.

Amar é de graça. Não paga dízimo e, muito menos, enriquece o Edir Macedo pra ele poder viajar o mundo inteiro com passaporte diplomático enquanto você se mata de trabalhar. O amor não cobra nada. Quer dizer, o amor cobra sim, e quem cobra do amor que você sente é o seu próprio amor, melhor dizendo, é o seu amor próprio.

Explico, se você tá entrando numa enrascada com um carinha nada a ver, numa amizade tóxica que só te suga, num emprego cujo chefe é um explorador insensível, dentre outras, o seu amor próprio, de certa forma, fica ali te dizendo o tempo todo que você deve mudar a rota. E sabe como ele te diz? Pelo sofrimento. O sofrimento é um aviso de que àquela situação não vai ser, definitivamente, a que vai te trazer equilíbrio, sanidade, paz e, claro, a tal felicidade.

Devemos abranger este amor não apenas ao amor carnal, que Pavese, inclusive, diz que é o amor egoísta, esse amor mesmo que faz a gente querer se casar e ficar junto pra sempre. Pois é, esse amor, lá no fundo, ele é egoísta, porque ele está buscando o seu próprio bem estar. Mas calma, antes de você achar que sou uma insensível, ou o próprio Pavese o fora, quero dizer em nossa defesa que isto não tira em nada a beleza do amor entre duas pessoas, pois o bem estar de uma pode influir muito no bem estar da outra e ambos serem muito felizes por uma vida inteira. O amor é lindo. 

Mas acredite, o amor é seu, logo, se a pessoa pra quem você quer dar amor não estiver a fim de recebê-lo, pule fora, o amor está em ti, assim como Deus está em ti, caso você creia nele, não é mesmo? Leve-o para quem queira e divirta-se.

Mas esse amor como religião, apesar de ser a “mais barata”, está bem longe de ser a mais fácil. É que o ser humano é muito falho e, para borrar o tal amor, temos a intolerância, a indiferença, o preconceito em todas as suas formas e outras manifestações deste calibre. Ops! Melhor não falar em calibre atualmente, ele está sendo disseminado por aí. Deste quilate, pronto.

Quantas pessoas negras têm na sua igreja? Quantas mulheres têm orando como figura principal no Domingo? Na igreja católica, só tem homem mesmo, o padre. Quando muito, a mulher está distribuindo a hóstia bem caladinha. Você já parou pra pensar no que isto significa?Quantas pessoas mais pobres do que você estão dentro do mesmo culto/missa? 

Enfim, o amor como religião precisa ser inclusivo e isso anda sendo tão difícil neste mundo de meu Deus. Ah! Sei, mas a igreja faz ações beneficentes, a igreja doa as roupas velhas para os pobres, a igreja faz mutirão de sopa para dar comida aos moradores de rua. Sim, isso tudo é lindo, é massa, mas é pouco demais para o que sonhou Jesus. basta ler a bíblia, o projeto dele era bem mais ambicioso de bondade, abrangia muito mais gente e muito mais igualdade. 

Enfim, Jesus talvez nos dissesse, hoje, que melhor seria se saíssemos de dentro das muitas paredes e fôssemos para as ruas nos amarmos como o Pai dele nos amou. Talvez ele pedisse para cuidarmos mais de nossos idosos, de nossas crianças, do nosso colega do lado. Talvez nos dissesse para, em vez de nos calarmos diante DA PALAVRA, que nós dialogássemos muito mais, procurássemos entender, ajudar, crescer juntos.

Não sei, talvez minha visão de mundo seja muito romântica. A minha religião definitivamente é essa do Amor, essa que troca energia boa e recebe coisas boas. Uma religião que acredita mais no que está aqui, que tem uma fé no bem, no agora, nas pessoas. Ando tendendo ampliar meu escopo sobrenatural e tenho fé nas pessoas que se foram. Como se a energia delas pudesse estar por aqui bem perto. Na hora do aperto eu peço por elas. Meu avô Alberto não tem sossego comigo, tô sempre chamando ele pra perto e, olha, ele costuma estar, acredite. Também tenho um truque. Na hora do aperreio, eu costumo pedir pra quem tem mais fé do que eu, pedir pra Ele. É que eu fico meio sem graça de pedir, já que eu não sigo os mandamentos e vivo desconfiando. Acho que pode parecer meio falso, e Deus me livre de Deus achar isso de mim, que eu sou falsa.

Sim, é confuso. Essa crença sem crer, esse ceticismo sincrético como bem diz meu ex marido de mim. Mas crer é isso, não? Essa coisa de acreditar no que não se tem, não se vê… É confuso mesmo. Tão confuso quanto praticar o amor em todas as suas dimensões, esse amor que ama além de si, além dos seus, ama a vida, assim como Jesus exerceu o amor, né?

A religião do amor é a mais barata, mas anda sendo beeemmm difícil de praticá-la. Talvez fosse mais fácil ir à missa aos Domingos.

Mas vou ficar do lado de fora mesmo, amando e querendo bem.

Amém.

 

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