amor que eu acredito
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Primeiro de tudo: não. Não sei se sou capaz de acessar todas as formas desse amor que irei descrever aqui, esse amor no qual acredito. Aliás, tenho certeza de que não nascera com a competência suficiente para conseguir amar tanto. Certeza que não. Apenas sigo tentando, pois essa é a única forma, pra mim, de se amar. O resto é fichinha. Sim, amar – desse jeito que acredito – é dificílimo.

Assusta. Perdão, minha ideia não era fazer com que você se assustasse e me abandonasse antes do segundo parágrafo desta crônica, ou deste ensaio, mas penso que, se você ficar, essa coisa difícil de conjugar que é o amor que eu acredito, já possa ir até ficando um pouco menos árduo, pois estaremos exercendo três grandes preceitos para amar: o da tolerância, o da paciência e do saber ouvir . Sim, se não partir daí, nem é amor, volte 20 casas e dê uma estudada – em si mesmo. 

Eu fiquei encucada com o meu texto que escrevi semana passada na ocasião do “dia dos namorados” (este aqui). Agora dei pra isso. Ano passado foi a mesma coisa, eu escrevi no dia dos namorados e, na semana seguinte, as palavras queriam dizer mais, queriam meio que completar àquela ideia, ou se explicar um pouco, sei lá. Como se escrevesse e, depois, tivesse de reescrever sobre o amor. Escrevi de novo.

É que amor é fonte inesgotável. Ele gosta de brincar com nossos sentimentos, testar nossos limites, nossa capacidade de se deixar invadir por um sentimento absolutamente desorganizador (ora, a gente deposita nossa felicidade em outrem, tem proposta mais insegura do que essa?) e, ao mesmo tempo, o sentimento que mais nos deixa em paz, em conexão com a gente mesma e com o mundo. e, que, na verdade, é mesmo fonte inesgotável de reflexões. Complexo mesmo, esse danado, nada mais natural do que eu escrever e reescrever sobre ele.

O mote desta crônica me ocorreu no meio da aula, luzes apagadas, enquanto passava uma entrevista de Clarice Lispector concedida ao jornalista Júlio Lerner em 1977 (imperdível, clica aqui). Na entrevista, Clarice disse que nascera para três coisas: Amar os filhos, escrever e AMAR OS OUTROS. Este último, que destaquei em letras garrafais, como grito, foi o que me motivou a escrever e que ficou ecoando em mim a semana todinha. E que me levou a reescrever sobre a semana passada, sobre o tal dia D dos namorados. Como numa série, com segunda temporada, pois é, precisava dar vazão ao amor que eu acredito.

É que me incomoda. Me incomoda profundamente quem me diz que ama alguém profundamente, mas é incapaz de amar os outros.

Amar marido, filhos, pai e mãe, amigos, isso é dado, isso é fácil, isso é óbvio. É igual a amar chocolate, amar ir à praia, amar, sei lá o que, essas coisas que todo mundo ama. Isso, me desculpe, não é conjugar o verbo amar em todas as suas pessoas. O amor que eu acredito ama o Ele (a) e o Eles (as).

Amar o outro, esse amor sem endereço, sem escolher cor, cheiro, lugar. Esse amor que se importa, esse amor que se preocupa se o filho da outra está quentinho na cama às 22h, enquanto ninamos o nosso filho, esse amor que se entristece quando vê uma família de miseráveis na esquina do restaurante no qual acabamos de nos esbaldar. É desse amor que estou falando, é esse amor que estou reivindicando, é esse amor que nos faz aptos a conjugar o verbo amar em seu limite. É esse amor incondicional que anda me comovendo, que ando tentando descobrir e encorajar por aqui.

Não estou dizendo que não é amor o que se sente pelos familiares, muito menos que somos os responsáveis por salvar as pessoas da miséria. Não somos. Mas estou aqui falando de amor, esse sentimento que começa pela empatia e termina em doação, desse sentimento que vai além, mas muito além do que apenas nos faz bem, do que alimenta nosso ego, nossa alma, nossa casa, os nossos. Esse amor egoísta. 

Falo de amor num sentido bem ampliado, esse amor que os voluntários dos Médicos Sem Fronteiras se dispõe a experimentar; que as pessoas que não votam em benefício próprio, mas da comunidade – ainda que nem seja tão bom pra si – são capazes de doar; esse amor que não se satisfaz em dar esmolas e expiar a culpa, mas que entende que um sistema precisa ser desconstruído pra que mais gente fique bem. Esse amor que entende que, enquanto não estiver razoavelmente bom pra todo mundo, não vai estar bom pra ninguém.

Por isso não deu pra estar muito inspirada pra falar de amor nos dia dos namorados. É que estava às voltas com esse amor difícil, mas o único amor necessário nesses outros todos os dias além do 12/06.

Era sobre isso.

Não era desamor.

É a tentativa de amar demais.

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