a vida é muito bonita

Olhe, repare, a vida, ela ainda é muito bonita

Uma manchete dessas em meio a esse pesadelo pode soar até meio naive, bobo, coisa de menininha que não sabe o que é pegar um ônibus lotado de Covid-19 pra ir trabalhar.

Não, realmente eu não sei, mas não é disso que eu quero falar – apesar de que é preciso falar disso todos os dias. Mas hoje, eu me darei a trégua, me darei o direito de me dirigir às sutilezas, a essas entrelinhas, a esses respiros que brotam igual àquelas plantinhas que nascem no meio de uma pedra e você não tem ideia de como foi que dali saiu vida e até acredita em milagre.

Mas repare. Tem vida bonita em um amor que se acaba. Tem vida bonita em reconhecer que, por mais que seja amor – e que talvez por ser esse amor tão grande – não é justo que duas pessoas se machuquem tanto. Não é justo que um não consiga mais vibrar com a alegria do outro, não é justo tentar ficar em uma história da qual não se faz parte. E aí, onde tudo é dor, tem vida bonita, tem pulsão de vida que, ainda bem silenciosamente, está te dizendo que lá fora, ali onde o sol brilha e depois se põe, ali naquele banho de mar de água morninha, ali fora tem muita vida ainda te esperando. E isso é lindo. Mesmo que agora esteja doendo, tem flor brotando da pedra já.

Preste atenção no rastro e no lastro de beleza que vai ficando de uma caminhada de sofrimento, do atravessar de uma jornada que, a priori, te dá um baque, te destitui a fórceps de padrões antigos do que você acreditava ser fundamental na sua vida. Mas dali, desse novo cenário no qual você nem se reconhece direito, lá está você mesma, meio machucada, mas inteira, encarando a vida de frente com a faca nos dentes, com um ar de, ok, posso até estar em batalha, mas a guerra tá ganha. Você começa até a pensar no que dali é preciso tirar de lição pra continuar esse caminhar tão massa que é a vida. No final, o que é carcaça a gente recupera, nossa natureza humana é muito forte, mas mais bonito ainda é a criatura que renasce disso tudo.

Naquele domingo, lembra? Chato, melancólico, confinado, você borocoxô, chateada porque a pandemia cancelou seu futuro, pois é, sem ter com o que se distrair de si, você “garra” num livro e um trecho te fala de maternidade e do quão é puxado essa tarefa que se escolhe pra vida. E você se identifica e se sente acolhida e se sente parte de um mundo que não está estampado nas propagandas, sendo que você nunca quis mesmo fazer comercial de margarina. Você não está sozinha e isso é colo e isso é lindo.

Atine pros sublimes momentos mais corriqueiros. Seu pai põe Edith Piaf e vocês ficam exclamando como aquilo é lindo demais e que vida sofrida ela teve e vocês divagam sobre música, sobre a vida. Depois rola Beatles e você e seu pai descobrem que sua mãe/mulher era beatlemaníaca e sabe todas e canta e dança e relembra da juventude dela e, no meio daquela saudade dos que não estamos podendo ver – e isso é de doer – vocês riem e reavivam arquivos do afeto e uma esperança de futuro, incerto, mas futuro. Fazem até planos de viajar quando o Corona se cansar.

Se a gente olhar bem, vai ter sempre algo de bom acontecendo, mesmo no meio do caos, desse buraco em que nos encontramos cavado dentro de cada um, no meio dessa angústia toda, tem coisa bonita acontecendo.

Eu não fico tentando me apegar a elas, até porque eu não consigo ser essa “Poliana” e acho chato isso de ver coisa boa em tudo. Como bem disse Ariano Suassuna, “O otimista é um tolo”. Mas fechar os olhos pra elas e não criar condições pra que elas brotem é perder tempo, é perder vida. Como bem disse Ariano Suassuna, “O pessimista é um chato”. E, ainda que o tempo tenha parado e que vivamos nesse looping de sexta-feira que promete e não entrega, mesmo assim, tem vida, “o pulso ainda pulsa”.

Como bem disse Ariano Suassuna, “Bom mesmo é ser um realista esperançoso”. E aqui dentro – e espero que aí também – tem uma pulsão de vida com a faca nos dentes só esperando, cheia de esperança, a bendita vacina chegar.

Nos aguardem!

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