perda

Perda

Quanto mais velha a gente fica, mais a gente perde.

Ganha experiência, ganha liberdade de escolha, ganha autonomia,

Mas perde.

Ganha filhos, ganha marido, ganha outras famílias, amigos, viagens, realizações,

Mas perde.

Ganha status, ganha bajulações, ganha o sexo, ganha o livre arbítrio,

Mas perde.

Perde as pessoas.

Quanto mais velha a gente fica, nesse decorrer de tempo quando nem percebemos que também estamos nos perdendo, que também vai, aos poucos, morrendo, quanto mais velha a gente fica, mais a gente vai perdendo os nossos mais velhos e os nossos pares.

Vai um avô, a avó e a bisa que tanto fez parte da infância… Vai o primo da prima que teve câncer na hora errada, se é que tem hora certa pra isso. Mas se tem uma hora errada pra ter câncer é na infância. 

Aí você vai envelhecendo e a mãe da amiga morre, morre o pai de um primo bem próximo seu, morre a prima da amiga e morre o irmão de um grande amigo. Alguém querido adoece, alguém que você admira demais se acidenta… Você perde as pessoas quanto mais velha você fica.

Parece óbvio, mas nunca é simples entender a equação de dor.

As pessoas vão morrendo. Feito num jogo, vem uma bala de surpresa e leva um, leva outro, você vai escapando, mas não totalmente. Você meio que vai junto naquelas mortes ali. Não que você morra, não que a sua vida acabe, mas, naquelas mortes ali,  morre junto a sua ingenuidade, morre o “feliz por nada”, morre sua capacidade de acordar sem que, seu primeiro pensamento, seja: será que tá tudo bem?

Nem sei a partir de que idade isso começa a acontecer. Isso de o semblante da gente ir se adaptando às perdas. Isso de a gente viver nesses sobressaltos, com medo de que seja com a gente, com o nossos. Isso de irmos tentando escapar, em vão, da justiça – ou da injustiça – terrena, essa que nos dá tanto e nos leva mais ainda.

Veja você, como é que pode morrer Boechat? Como é que pode?

Ouvi o cara anteontem de manhã falando da reforma da previdência.

Como é que pode?

Naquele acidente de helicóptero, sobre o qual ouvi as primeiras notícias e lamentei. Daí vem o mundo me dizer que naquela famigerada aeronave – coisinha que tenho horror é a helicóptero – àquela desgraça em forma de brinquedinho voador e derruba o Boechat!!!

Ah! Tenha santa paciência!

Nem vou me deter aqui a falar de quem era Boechat, porque tem tanta gente mais próxima e mais gabaritada do que eu pra falar dele… No que me toca, ele era assunto diário entre mim e papai, e, muitas vezes, ficávamos rindo em troca de mensagens – mensagens mesmo, porque papai, de vanguarda, não tem esse atraso de vida que é o Whats app – muitas vezes ficávamos trocando mensagens e rindo e fazendo piadas em cima das piadas da dupla Simão-Boechat.

Boechat era conexão. Entre mim e meu pai, entre mim e o mundo, entre papai e o mundo, entre um monte de gente, como pudemos ver e ouvir nas homenagens.

Perder Boechat é perder lucidez e é perder coragem, como bem falou alguém. Acho que o Padre Fábio de Melo. Em tempos tão sombrios, alguém que tivesse o alcance de voz como a dele, e que voz, toda palavra era fornida, preenchida, soletrada e carregada de sentido. Pois bem, a gente perde justo o Boechat???

Fala sério, mano! Tão de sacanagem com a gente, só pode.

Eu que pretendia um 2019 mais leve, ando chegando a conclusão de que é tudo meio que ladeira abaixo. As perdas são mesmo inevitáveis e as pessoas, ao contrário do dizem nas empresas,  as pessoas amadas e admiradas por nós, elas são insubstituíveis.

Não tem consolo pra perda de pai e mãe. Muito menos pra de filho. Não há consolo pra perda de irmão, de amigo, de gente pequena, de cachorro de estimação. Não há consolo.

Há solução, sim, tem de haver e eu me atrevo a dizer duas: Uma é a resignação. Quando a gente fica mais velha aprende a acolher essa palavrinha do dicionário, a qual passa longe dos adolescentes e crianças. É àquela aceitação de algo que nem nos foi perguntado se aceitaríamos ou não. Tem que aceitar e seguir. E a gente segue, sim, meo cabisbaixo, com os ombros mais pesados, com fardos e saudades acumuladas, mas a gente continua.

A segunda solução é a ressignificação (não sei se existe essa palavra, pois tem um monte de tracinho vermelho embaixo, mas você entendeu). A tentativa de realocar o papel daquele ser em outro lugar. De não poder mais contar, mas apenas se lembrar e tentar imaginar o que ela/ele diria, faria. Pra quem tem fé, é tentar transformar a pessoa em anjo da guarda, em mentor, em protetor. Cada um faz como pode pra poder aliviar a dor. Não dá pra seguir doendo, não dá pra seguir sofrendo, pela saúde e pela sobrevivência, a gente precisa ressignificar.

Por ora, sem Boechat e com medo de amanhã acontecer algo “pior”, a gente vai torcendo pela vida. A gente vai olhando ali da janela e deixando a brisa bater. Com sorte – como a minha – dá pra ver o mar, dá pra abraçar a mãe e o pai e o sobrinho. Dá pra comer a comida da Val, dá pra ler um bom livro, dá pra planeja viagens, da pra fazer um bocado de coisa com o que tem por aqui.

Porque, depois de algumas perdas consideráveis, eu aprendi: não adianta se desesperar, se debater e buscar respostas. A vida é à revelia, ela tira e bota quem ela quer.

E a graça está em saber seguir com o que se tem, que, se você olhar bem, já é coisa boa pra caramba.

Obrigada, Boechat, pela sua vida!

boechat
Boechat e uma saudade.

2 Comentários

  1. tia Lucia

    oi querida…..Como a maioria das pessoas eu tb tive um Guru na minha vida…Ele era muito sábio, de uma lucidez sensacional e escolheu no seu percurso de vida alguns seres humaninhos para passar seus conhecimentos de vida…ele era 25anos mais velho e tinha a sabedoria que os mais experientes tem e diante de uma grande perda na minha vida ele me viu de ombros curvados e a cabeça enterrada e me deu um abraço e falou….”minha amiga aprenda….. na vida precisamos perder sempre para podermos ganhar”…confesso que achei …… bom não vem o caso pq quando estamos tristes, revoltados e decepcionados achamos coisas horríveis….mais a lição ficou e hoje aceito melhor as perdas….as despedidas da vida. bjus no seu coração.😍

    1. Luciana Targino

      Eu acredito nisso, que a gente perde coisas para poder ganhar depois, para se livrar do que não era nosso de fato. O ruim é perder as pessoas que eram nossas, para isso, acho que não há ganho que substitua àquela dor. Mas a gente segue, né? Vai chegar uma hora que alguém vai nos perder e esse é o curso natural. A gente só não está é prepara para ele. rsrsrs. Beijo imenso. Adoro as suas palavras aqui.

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