Por hora: ainda sobre este momento

Por ora: ainda sobre este momento

Cem dias. Talvez um pouco mais, um pouco menos. Sou de humanas e costumo arredondar números por preguiça de fazer conta. Seis meses, sinto. Sinto que já faz seis meses que eu tô aqui dentro.

Não tão dentro. Dentro mesmo, de casa, foram quase dois meses. Depois passei a sair duas, três vezes por mês. Agora, já vou até à praia uma vez perdida. Tento fazer o que todo mundo anda me falando, mesmo que minha alma só queira mesmo é ficar confinada, trancada com medo do mundo.

-Você precisa sair.

– Você precisa viver.

– Você está exagerando.

– Não é bem assim

Eu já nem sei mais bem como é. Nem sei como é que se vive, nem sei como é que se busca a felicidade, nem sei como é a felicidade.

Tudo é turvo, tudo parece errado, tudo parece ameaça e quem não entende o mundo ameaçado me parece estar numa falsa ilusão de que está tudo bem. Não invejo, não acho que essas pessoas estão felizes. Enganar-se é das tarefas mais sofridas que se vive em vida. Enganar-se num amor, numa amizade, num trabalho… Enganar-se na vida, viver fingindo que está tudo bem pra si mesmo. Pra mim, nunca funcionou, sempre doeu.

Olho pra fora e vejo uma desesperança. Tento me agarrar em lembranças de como era tudo antes, de como eu gostava de ir naquele café comer uma tapioca e tomar um cappuccino que me adoçava a alma, enquanto eu digeria algumas frustrações e alimentava propósitos. Agora, quando passo ali em frente, nem imagino como seria eu ali dentro, confinada com mais um monte de gente. Se alguém espirrar, eu corro.

Fico pensando que vai passar, ao mesmo tempo que me dá uma angústia saber que estou a um elevador de pessoas que eu queria tanto abraçar e não faço a menor ideia de quando poderei. Tenho jogado pro Natal o meu horizonte. Assim, se for antes, estarei no lucro.

Tento me encontrar nessa nova rotina que criei. Onde divido o dia entre os exercícios físicos, o banho de sol, os estudos, as horas de comer, a minha novela e a live da Teresa Cristina que nem sempre eu vejo, mas entro pra saber que ela está ali e ouvir um pouco daquela positividade. Sou grata. Gratidão é uma forma de alimento.

Dentro de casa é meu bunker. Saio doida pra voltar, tomar banho e pensar que deixei lá fora o tal vírus que pode infectar a mim e, por consequência, aos meus pais. Dia desses meu sobrinho me pegou desprevenida e eu estava sem máscara. Por aqueles 30 segundos permaneci sem, não ia dar tempo de botar. Pensei que depois de cem dias, sei lá, não faço contas grandes, sou de humanas, foi a primeira vez que ele me viu como me via antes e eu a ele, pois essa máscara atrapalha ver e ouvir. Fica tudo em suspensão, os sentidos todos tortos.

Estou desde o início desse fim do mundo brigando comigo mesma de que preciso ficar bem. Não tenho obtido êxito. Tenho vontade de chorar algumas vezes ao dia. Às vezes não dá tempo e esqueço, às vezes eu choro.

Eu vejo o presidente da república e me dá uma tristeza, minha sensação de desesperança aumenta. Tenho evitado. Soube que ele pegou a doença. Se for verdade, porque dali nada é confiável, tomara que ele sobreviva, mas tomara que a Covid tenha vindo pra ensiná-lo alguma coisa. Que ele perca essa vontade de matar as pessoas. Que ele entenda a gestão do Brasil não como um projeto próprio de vingança, feito Hittler, mas como um projeto de salvar vidas. É querer demais, eu sei. Por isso me “desesperanço”.

E meu corpo dói. Dói igual criança mimada que quer o brinquedo de volta e reclama. Ele reclama quase o tempo todo e dói. E eu choro já nem mais saber por que. Só escorro.

Ouço no rádio do carro que “vai passar”, mas o que seremos? Qual o futuro que nos espera? Já estamos há cem dias, ou mais, ou menos, não sei, sou de humanas, nos fazendo essa pergunta que já virou lugar comum. Como seremos já virou passado. Futuro dado em pretérito. Especulações cansativas e frustrantes.

Penso que seremos os mesmos, só que com máscaras. E por pouco tempo, pois é já que as pessoas se esquecem desse lance de que a vida do outro depende da delas. na verdade, isso nunca foi muito comum por aqui, essa coisa de empatia. Esse conceito é pouco explorado por muitos de nós.

Por ora, eu fico aqui me apegando a pequenos futuros. Daqui a um mês e meio eu devo ir ao shopping e isso me dá esperança. Eu sei, é bem boba, mas é assim que vou assimilando uma vida “normal” depois disso aqui. Mesmo sabendo que eu provavelmente não terei coragem de ir ao shopping daqui a um mês e meio.

Por ora, eu penso que talvez eu possa chamar umas vinte pessoas pro meu aniversário que é em Setembro.

Por ora, eu imagino voltar pro Rio no ano que vem e frequentar uma sala de aula, porque essas aulas on-line são iguais às máscaras. Ouço menos, absorvo menos.

Por ora, agora, eu fico aqui me perguntando se nós teremos futuro, meu amor. Eu e você. Pro mundo.

Mas antes de eu ir dormir, embebida desse marasmo todo aí, entro na live da Teresa Cristina em homenagem a Moraes Moreira e ela estava cantando “Besta é tu, besta é tu, besta é tu, besta é tu. Por que não viver, não viver neste mundo?… Se não há outro mundo”.

Pois é, besta sou eu. Deixa de ser besta, eu, e bora viver.

Vai passar. Tá passando.

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