roupa velha

Roupa velha, aquela.

Tenho uma blusa que ganhei há uns 17 anos, pelas minhas contas hoje. 

Ela já foi de roupa de sair – das preferidas – à roupa de ficar em casa, já tendo viajado pra Europa com mamãe, certa vez.

Morando no Rio e sempre por Fortaleza, mantenho roupas daqui, e de lá não trago nada. É como se tivesse o guarda-roupa do Rio e o de Fortaleza e, creia, apesar de serem cidades com “fetiche de calor”, lá no sudeste sempre tem uma frente fria, logo, minha paleta de cores carioca é mais escura.

Mas isso nem vem ao caso. Fato é que, quando estou em terras alencarinas, fico tentando compor um look que ainda me represente com as peças do guarda-roupa e, vira e mexe, eu encontro outra Luciana saindo pela rua. Mais colorida, mais curtinha, sem casaquinho, mais fluida, hippie… O que eu um dia já fui – e amava ser – e, sabe-se lá Oxalá, fui me perdendo por aí.

Sem reclamação, nem melancolia, mas o meu ascendente em Leão e lua em Touro adoram essa espontaneidade e liberdade no vestir-se.

Hoje, pra ir ao shopping com minha mãe, peguei a tal blusa que iniciou esta crônica e, ao colocá-la, resgatei meus vinte e poucos anos. Sabe quando Proust mordeu a madelaine? Fui eu com a minha blusa.

Quem me deu foi uma tia por quem eu tenho um carinho muito especial, não só por ela, mas pelo marido, pela filha, por todos daquela família ali. Durante certo tempo, fomos a mesma família e foi lindo. E ainda somos, até porque ela é tia, mas fomos mais próximos. 

Desculpa aí a confusão, vou ser mais clara, porque a gente sempre fica nessa de esconder sentimento e isso é o maior paia. Se eu não falo, eu explodo. Eu namorei o filho dela e vivemos um amor lindo. E, em um dos meus aniversário dessa época, ganhei de presente a tal blusa.

Enquanto eu me olhava no espelho, pensava naquele tempo, em tudo o que fui e o que ficou. Fiquei grata por termos mantido tanto carinho tantos anos depois. Acho até que só aumenta, mesmo nos vendo pouquíssimo.

Por coincidência, hoje vesti um blusão de ficar em casa e me lembrei de que foi outro namorado quem me deu e fiquei feliz em tê-la. Ela me traz conforto, tanto literal quanto metaforicamente. Um cara bacana que me plantou sementes musicais lindas e sintonizou minha forma de ouvir.

É que a roupa velha, essa que você vai enjoando, jogando fora, deixando esquecida, ela tem tuas impressões, não as digitais, que saem na lavagem, mas as emocionais, essas que não desbotam com alvejantes. 

Se foi forte, de verdade, fica, tá lá, tatua e como é bom.

Roupa velha te leva aos shows de axé e rock mais incríveis que você já foi. Fosse do tempo em que se era fã de Bel Marques, fosse daquele inesquecível show do U2. A verdade é que antigamente, quando a gente é jovem, todos os show são mais hiperbólicos, intensos e incríveis.

Roupa velha te leva pro primeiro encontro com aquele cara que você nunca mais viu, ou até viu um dia desses, meio barrigudinho, com dois filhos, de longe, mas as memórias estavam grudadas em ti.

Roupa velha te leva para aquelas férias maravilhosas em Noronha, aquela canga que você usava pra deitar na areia e tomar sol.

Roupa velha te leva para quando seu filho tinha um mês, um ano e você guardou de lembrança aquele macacãozinho que deixava as perninhas gordas à mostra e ela ou ele ficava a coisa mais fofa desse mundo.

Roupa velha te leva pra dentro de ti, para os lugares onde nem a memória alcança, às vezes, mas a emoção sim. Aquela sensação sem nome, aquele estado de espírito, aquele meio sorriso de quem quer guardar como se guarda um cheiro, um sabor, um tom de vós.

Roupa velha não nos deixa esquecer do que já fomos, ela conta uma história, nossa trajetória até chegar aqui. E ainda nos dá uma pista de como voltar a ser o que éramos, no caso de termos nos perdido devido às intempéries da vida.

Roupa velha nos remete ao passado e, contrariando a evolução, acho que são elas que nos mantém jovens.

Ou você não tem aquele pijama velho, puído, que sua mãe, ou esposa, ou marido já reclamou mil vezes e você sente como se ele fosse um urso de pelúcia que te abraçasse toda noite?

O marido pode sair da cama, o pijama, jamais.

E foi assim, com minha blusa velha linda, a minha cara, que eu fui badalar no shopping. E a tia que me deu a roupa me mandou uma mensagem de voz linda dizendo que ficou emocionada ao saber que eu ainda usava esta blusa.

E nesse curto espaço de tempo eu regatei minha história num momento de vida bem confuso e me senti em casa, me senti em paz e com a certeza de que tenho porto, casa e colo.

E a sua roupa velha, te leva pra onde e veste o que em você?

Ah, e se você curtiu essa crônica, deixa nos comentários e chama a sua amiga pra ler. E pode ser que você goste desse poema também. 

2 Comentários

  1. Larissa

    Roupa velha, principalmente as que foram presenteadas, nos remete a amor.
    No meu caso, recordo do sorriso da minha mãe, do seu orgulho mesmo, ao me ver desfilar com os modelitos. Era brincadeira e alegria! Um dos poucos momentos felizes da infância em família.

    1. Luciana Targino

      Larissa, querida,
      Fiquei tocada com seu comentário. Fico feliz em você guardar lembranças boas de lá através das suas roupas velhas. Que bom que elas te trazem amor.
      Bjs
      Lu

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