Serenidade e Discernimento

serenidade e discernimento

Serenidade e Discernimento

Lembro-me de uma conversa num restaurante em São Paulo com um amigo nos idos 2013, lá no iniciozinho de tudo, lá quando a gente já tava ficando doido, mas eu não havia me dado conta. 

Dizia ele que estava difícil viver (até escrevi sobre isso uma vez aqui). Lembro-me de ser o começo das das manifestações, ainda “não só pelos vinte centavos a mais na passagem de ônibus“, mas praticamente por isso… Tava só começando. 

Lembro-me de ter discordado dele, ou melhor, de ter feito questão de discordar, de mostrar pra ele que a vida da gente era muito privilegiada, cheia de oportunidades, vantagens e possibilidades várias de construirmos o futuro como bem entendêssemos. Eu devia estar meio apaixonada por ele e querendo fazê-lo ver que a solução para aquela angústia era euzinha e eu estava ali na sua frente, bastava me querer. Só pode.

Eu sempre tento ficar com o lado bom das situações e das pessoas. Sempre. Se a Fulana falou mal de mim, vou tentar dar um jeito de encontrar uma razão só pra eu poder ficar de bem com ela, porque cultivar raiva é coisa que eu não sei fazer, me dói, é conflitante e eu, simplesmente, me esqueço que tô com raiva e falo normalmente com a criatura.

No quesito “paquera” sou mais vendida ainda, e me rendo ao próximo sorriso, carinho… quer dizer, me rendia. Calejei.

Corta a cena para 2018 e vejo que aquela inocente da mesa do restaurante morreu, ou pior, renasceu, só que mais descrente. Tenho vivido, visto e ouvido cada coisa que, salve-se quem puder.

É uma falta de compreensão, de diálogo e de empatia que me assusta e magoa. É uma dificuldade de enxergar o outro em profundidade, em passar da primeira fase na relação – seja de amizade, amor, ou outra -, é uma truculência, é um gritando e o outro respondendo com pedra, é cada um querendo ser ouvido, mas não só, querendo que sua verdade se torne universal, é cada ditadura individual, que salve-se quem puder.

Serenidade e Discernimento.

Foram essas palavras que pedi com toda a fé para se abaterem sobre uma amiga, quando ela me relatou uma história que me fez subir os cabelos de pavor. Estamos, sim, completamente doidos e, sim, está difícil viver.

Fico morrendo de pena da nova geração, dessa que tá aí com dez anos pra baixo. Dessa que é filha da gente, que está sendo educada por pessoas que perderam a capacidade civilizatória e pior, perderam a compaixão, perderam a sensibilidade, a calma. Sim, perderam a serenidade pra encarar o próximo e o discernimento para digerir os fatos. Usei o termo digerir, porque a palavra julgar, pra mim, é a vilã da hora. A gente só se julga, ninguém se escuta  e se reflete mais. 

Não acho que seja o fim do mundo. Espero, ansiosamente, que chegue a próxima fase, mas, por ora, no lugar de ordem e progresso, escreva em sua bandeira, discernimento e serenidade. Assim mesmo, meio Jane Austin, vai te ajudar, espero.

Acredito, realmente, que estamos num momento de efervescência. Fico imaginado que, se existe alguém, ou uma terceira dimensão que nos observa, essa galera deve tá se divertindo com esse monte de marionete batendo cabeça achando que está mudando o mundo, mas tá só atrapalhando o trânsito mesmo.

Todo mundo tem palanque, vide redes sociais, e como a gente fala besteira. O celular do meu pai é analógico e o invejo num grau. O tempo dele que é outro, ele só vive uma história de cada vez, só se relaciona com o agora, com o aqui e não com quem tá fazendo sei lá o que e postando o ponto de vista com truculência em cima dos demais. Papai arrasa. 

Sei que a hora é de mudança e esse caldeirão inflamado é natural. Sinceramente, acho ótimo que essas discussões políticas, sociais e comportamentais estejam acontecendo. é lindo o movimento negro, o feminista, o gay e a corrida anti-corrupção. O problema é que nos perdemos em meio a “democracia” de opiniões, nos atordoou ouvir muita gente falando e estamos querendo que calem a boca e nos engulam a seco.

Não dá.

Por meio de mensagens truncadas a gente se xinga, se fere, se açoita, se assola, se rechaça e se afasta. Perdemos amigas, namorados, tios, primos e até irmãos estão se perdendo em meio a essa incapacidade toda de se relacionar.

Serenidade e discernimento é só o que eu peço pra gente ultrapassar essa etapa que não sei ao certo quando e nem em que ela vai desaguar. De 2013 pra cá já são cinco anos e acho que estamos apenas no meio do caminho, se tanto.

Que marte nos abençoe.

4 Comentários

  1. MICHELLE

    Muito bom, também acho que é de serenidade e discernimento que estamos precisando! E torço para que um dia as pessoas queiram menos “ordem, imposição, coação, força, intervenção estatal” e mais liberdade, responsabilidade, cooperação, noção de sociedade.

    1. Luciana Targino

      Falou e disse, Mi! Ando com a cabeça pensando muito no que você disse. Precisamos conversar mais sobre isso. Bjs

  2. Vitória Morais

    Lu, como eu amo a conexão que seus textos tem comigo! Infelizmente, é verdade… Eu, agora que tenho 20 anos, já me sinto tão velha e consumida por essa vida alienada e já me sinto tão triste por ver tanta intolerância, falta de sabedoria, ignorância -gratuita mesmo- sendo espalhada por aí. Que nós, os loucos, ”diferentões”, os escritores (hahaha) ainda possamos contribuir pelo menos um pouquinho com esse mundo tão ferido e doente. Continue assim: trazendo vida, com tanta serenidade e discernimento, através das palavras. Bjooo! Ps.: Eu tava morrendo de saudade do blog! Hahaha

    1. Luciana Targino

      Oi Vic! Eu também tava com saudade de você pode aqui :))).
      Talvez a loucura de quem esteja à margem seja o que temos de mais são no momento, né? Calar e observar tem sido mais saudável do que bater de frente, já que anda difícil conversar. Porém, a meu ver, há uma luz: a conversa olho no olho, uma a um. Essa conversa que a gente pode sentir a respiração do outro, ver o que diz o olhar além das palavras e se enxergar nas entrelinhas… Dentro da palavra não dita pode ter muito mais sentimento e compaixão do que conseguimos expressar com as palavras. Não vamos desistir da humanidade e nem de nós mesmas, né? Beijos, linda!

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