futuros

Sobre içar futuros

Acordar. Traçar uma rotina. Não pensar que tudo é vão e que a vida anda passando por entre os dedos e estamos perdendo tempo de vida. Programar as saídas da semana de modo que não precise lavar os cabelos diariamente, duas vezes ao dia. Ir e voltar sem o vírus. Me lambuzar de álcool gel a cada vez que minha mão tocar qualquer coisa na rua. Não tocar em quase nada na rua. Nunca tocar no rosto. Manter relativa distância de pai e mãe pra não correr risco de passar o vírus pra elxs, caso eu esteja com o vírus. Lembrar que terá um depois com vacina. Contentar-me com a felicidade nas pequenas coisas. Torcer pra o Nelsinho vir preencher o dia, a tarde. Mesmo eu estando de máscara, dar cor ao momento tentando mostrar pra uma criança há meses em uma pandemia que a Covid está passando, que vai passar, sendo que ela não passa como a gente pensou que passaria, como a gente queria que passasse. Estudar. Ler. Tentar chegar ao final do dia com a sensação de dia preenchido. Encontrar raramente – muito raramente – e à distância com as primas, com uma amiga e encher o coração de afeto bom, estocar esse calor que, meu deus!, como faz falta. Fazer as unhas a cada três semanas – oba! Essa semana tem. Dar um corte no cabelo. Sair pra pedalar pelas ruas vazias aos domingos pra evitar as pessoas, ao mesmo tempo em que se busca ar. Ensaiar voltar naquele café que tanto amo estar para ler, escrever, pensar na vida, mas seguir adiando pra um futuro mais seguro. Sondar como anda a vida em Jeri pra jogar a ida pro mês que vem. Fazer planos pra hoje e depois ter medo das decisões precipitadas. Sentir-me VIVA, mesmo com medo, mesmo errando. Marcar reuniões e organizar eventos virtuais. Ter ideias, lançar produtos (aliás, você já comprou as artes com poesia que eu criei com a @porestaseoutras?). Fazer compras on-line e ficar na expectativa da chegada. Vibrar com um encontro mascarado e ao acaso na garagem do prédio. Constatar que as pessoas ainda são de carne e osso e não de pixels. Ligar pra alguém. Vibrar ao ver as crianças brincando lá embaixo. Poder ver as crianças brincando de perto, com máscara, mas vê-las. Como elas cresceram! Fazer planos de viagem. Fazer planos de volta à sala de aula. Fazer planos de volta ao Rio de Janeiro. Acompanhar o gráfico que mostra a diminuição da pandemia. Conferir a tábua das marés pra programar o banho de mar na maré seca. Combinar de ver a lua cheia com gente – pouca gente – especial. Assistir/ler o jornal pra saber em qual fase está a vacina de Oxford, a da China e saber se a do Putin está imunizando geral sem matar (tô topando qualquer coisa). Ler, ouvir música, estudar, estudar, me agarrar com unhas e dentes no meu doutorado à distância. Pensar daqui a um ano. Pensar no depois da vacina. Pensar no carnaval em pleno mês de maio. Conferir se os filhos do presidente já estão pra ser condenados… Içar futuros, tentar olhar por cima desse muro, por trás dessa névoa toda que cobre o mundo e cobre o Brasil. Dessa fumaça que queima o Pantanal com plantas e animais e que acinzenta o país. Manter a esperança em alerta e puxar lá do fundo da razão uma fé que quase não tenho. Içar futuros, é isso que eu estou tentando fazer. 

E você?

Vem!

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