vertigem

Vertigem

Passei o dia sem conseguir desenvolver texto algum pra esta crônica de quarta. A segunda-feira foi vã nesse sentido. Parei. Pensei: vou publicar alguma já engavetada e empoeirando aqui nos meus arquivos, dessas que dizem do contemporâneo, mas não necessariamente de um fato específico, enfim, são atemporais. São umas ideias que me ocorrem entre quinta e segunda, que escrevo pra não perder, pensando um dia em publicar. Tenho umas dez pra sair, mas sempre prefiro teclar de véspera. Tá mais quente, mais visceral e é isso que me atrai na crônica.

Realmente as palavras não davam conta. Não davam conta de expressar o que nem o corpo anda dando conta. Sensação estranha de fim de linha, de estar vencida, nocauteada, ainda sem força pra reagir. Uma fala que ninguém ouve, um grito que não se entende, um convite que não se aceita. Desisti.

Aí eu fui assistir o tão adiado por mim, não por nada, mas pelo simples hábito que eu não tenho de assistir Netflix, fui, finalmente, assistir “Democracia em Vertigem”, da Petra Costa. 

Faz meia hora que o documentário acabou e eu não consegui pregar o olho. Já passa da meia noite e eu desisti de dormir, vim escrever. É que as palavras não davam conta de ficar armazenadas neste corpo que, a essa hora, só quer sono. Cedi à elas que é pra ver se, saindo, me deixam em paz. Adendo: acordei a noite inteira com sonhos tumultuados.

Pensei em escrever uma resenha sobre o doc, mas eu jamais poderia resenhar diante do que somos nós mesmos. Resenha-se sobre algo que eu vi e não sobre o que é sangue, pele e osso, não sobre o que sou eu. Resenhar esse filme é como tentar despregar a alma do corpo e me olhar de fora, com um olhar crítico. Não dá pra não ser passional. E o Democracia em Vertigem sou eu e é você do início ao fim, seja você quem for, seja o que Deus quiser.

Durante a vertigem, ops! durante o filme, eu tive vontade de fotografar algumas cenas e ir postando, e comentando, e cutucando, mas, era estranho, cada vez que eu pensava nisso, mais ainda eu me calava, me desanimava perante tudo o que eu já sei que vai ser dito. Já sei, inclusive, quem vai dizer o que. Cansei.

Ao contrário, terminou o filme e eu desativei as contas do Instagram e do Facebook no meu celular. Fazia um tempo que o Instagram tentava mesmo me calar, já não me mostra pra quase ninguém, já bloqueou minha conta por censura, enfim. Cedi. Achei que fosse mais corajosa, contudo, não tenho nem um quinhão da coragem das ativistas que foram torturadas durante a ditadura e resistiram, de cabeça erguida, aos desmandos de militares covardes, toscos, imbecis, a escória da raça humana. Uns merda mesmo. Não gosto de escrever palavrão em texto, mas saiu e vai ficar.

Me deu vontade de me calar ainda mais, deixar gritar por dentro até passar tudo e eu poder conversar de novo. Mas, minha vontade é de conversar somente com quem assistiu ao documentário da Petra, nenhuma opinião de quem não percorreu este encadeamento de fatos narrados, comprovados e vividos me interessa.

A gente acompanha as notícias em fragmentos e eles são perfeitos para que ela, a notícia, se evapore, se deturpe, se perca. Logo, só me interessa ouvir quem viu o filme, ainda que a criatura interprete de uma forma completamente diferente da minha, ainda assim, pelo menos, estaremos minimamente falando a mesma língua. Eu falo português democrático, e você?

Não, não vou emitir minha opinião, estou exausta. Enquanto sofria mandei uma mensagem para um primo dizendo “Estou assistindo Democracia em Vertigem e não sei por que estou fazendo isso comigo”. Alíás, isso que estou fazendo comigo, essa curiosidade que foge toda a minha constituição, cultura e criação andam me dando muito trabalho e “canceira” emocional e física. Mas é caminho sem volta, ainda que tivesse retorno, eu jamais voltaria.

Mas voltando… Dia desses eu encontrei uma criança de uns sete anos numa praça no Rio de Janeiro. A criança chorava porque havia brigado com o irmão. Não queria mais brincar com ele e disse que preferia ser filha única. Coisa de brigas entre irmãos pequenos, a gente sabe como é.

Retruquei: – Mas já pensou se tu não tivesse irmão, tu não ia poder brincar com ninguém na tua casa.

Ela: – Ia sim, a fulana (filha da empregada) tá lá.

Eu: – E se ela viajar e não estiver lá?

Ela: – Ela não vai viajar porque ela é pobre.

Repetindo, a fala é de uma criança com sete anos de idade. Com sete anos e já entendeu tudo, inclusive o que muitos adultos ficam tentando se enganar enquanto dão esmolas e preferem manter tudo como está. Tudo me chocou na fala dela. Tão inocente, ingênua e pura como só as crianças podem ser e como apenas elas podem nos ensinar, sem hipocrisia, o real cenário ao qual estão submetidas e a forma como estão absorvendo o mundo. A frase está ecoando em mim até agora e, certamente, a tal criança já deve estar de boas com o irmão há muito tempo.

Fiquei com medo pelo futuro que estamos deixando para essas cabecinhas que bebem da nossa fonte, que se transformam no que damos de exemplo. O que será que NÃO é dito que a faz entender o mundo desta forma? O que o contexto, as relações, os afetos estão plantando na personalidade de uma criança dessa que não disse nada além da verdade nua, crua e cruel desse país desigual? Tem como reverter isso?

Nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Viva Belchior. Mas não só e, ainda que alguém queria vir me falar que a culpa é de pai e mãe, não concordo. É muito maior do que só isso, tem muito mais gente envolvida nesse pensamento, tem a gente, tem a sociedade, tem o preconceito, tem o hábito e tem o voto.

Mas aí eu assisti democracia em vertigem e fui nocauteada, aliás, é o que percebo que a gente vem sendo, nocauteada todos os dias, feito a “virgem que todo tarado quer” (BOLSONARO, Jair, jul de 2019) e, à força, pega.

É uma pena.

Quisera eu que fosse só uma vertigem.

Vai passar.

A democracia? É ela quem vai passar?

Devo ter bebido demais ontem. 

E olhe que eu nem bebi.

2 Comentários

  1. Maria José

    Querida!!!!Linda e reflexiva sua crónica!!!Também assisti ao documentário da Petra.Sim, tudo real e aínda doi muito.Mas acredite…vai passar…
    Somos produtos ainda admiradores de escravocatas.Seremos aos poucos lapidados ,mas este processo,por ser lento nos incomoda.Calma,muita calma..a história das mentalidades move se como uma montanha obesa…mas garanto te,ela não parirá ratos,ela andará.Passei pelos anos de chumbo na adolescencia.Morava no interior de SP.Tinha amigos,infinitamente mais abastados ,que estudavam no Rio..assim era na década 60..prestava se o Cecem/Cecea…que eu conhecia e respondia as questões pelos jornais do açougue…rs (hj impensável embrulhar carne assim)Era meu sonho irrealizável estudar em uma Univ. pública)Vinham ,eles,nas férias…e nos traziam Pasquim…e nos apresentavam Henfil,e Chico /Nara/Gil/João/e tantos..e tantos…que rapidinho aprendemos o significar da resistência.
    Resistiremos sim querida!!!Outras formas..mas resistência ,pois é na força dela que implacavelmente a montanha anda.Confie.Abraço gigante em vc .Ah…nem pense em meus bárbaros erros gramaticais…..do contrário seremos inimigas rsrs

    1. Luciana Targino

      Querida Maria José,
      Suas palavras me acalentam e me enchem de esperança. Obrigada!
      Fiquei me imaginando em você, esperando ansiosamente pelo Pasquim, por Chico e companhia ilimitada de talentos. Que delícia, um conforto para um momento tão sombrio como àquele. Sim, resistiremos até que a montanha obesa passe. Conte comigo. Obrigada!

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