cadeirante caindo quem se importa?
Esta foto lamentável eu peguei aqui https://bit.ly/2FpnF7C

Você se importa? Quem se importa?

Limitada em meus movimentos pelo meu joelho operado – pense num joelho pra render, rsrs – estou mais sensível ao projeto urbano de nossas cidades.

Pergunto: como é que vivem as pessoas com deficiência física?

Sei, parece um assunto cliché, desses que todo mundo se compadece por meio minuto, mas depois, na correria de suas hábeis pernas que funcionam em perfeito estado, pulam umas duas poças d´água da chuva de três horas antes, desviam de uns cinco buracos, sobem e descem alguns desníveis das calçadas que estão bem longe de cumprirem sua função de “lugar para pedestres” e, sem nem perceber, muito menos se importar, chegam ao seu destino, quando muito, chateadas por terem pisado numa poça e molhado o pé.

Cansou?

Pois agora pense no que é você fazer isso sem poder botar o pé no chão, no que é você fazer isso com duas muletas. Pior, pense no que é você passar por esse trajeto/saga guiando, sozinha, a sua cadeira de rodas. Imaginou? Na sua imaginação, imagino que você só consiga ver o seu próprio quarto, né? Porque é certeza de não dá nem vontade, muito menos ter a mínima condição de você sair de casa.

Mas quem é que se importa? Quem é que tem tempo de se importar com uma coisa dessas que não interfere em nada na vida? Até, claro, que se sofra uma acidente, ou, como eu, passe por uma cirurgia e esteja você do outro lado? Do lado de quem ninguém se importa.

 Calma, não estou desejando isso a ninguém. A dor que eu senti e ainda sinto, o medo que tenho de tropeçar numa pedra solta e lascar de vez meu joelho eu não desejo nem a quem me fez mal. Eu só estou querendo constatar o que a falta de empatia faz com o ser humano.

Empatia, esse gesto tão simples e tãaaaaoooo difícil de ser exercido que é o de se colocar no lugar do outro.

No lugar de quem anda de ônibus, por exemplo, antes de ficar com ódio da fechada que levou do grande veículo. Pense comigo, ele passou na sua frente carregando umas quarenta pessoas que, provavelmente, não têm dinheiro pra comprar um carro. Se isso não te comoveu, posso descer mais um nível. Já imaginou se todas essas pessoas tivessem com um veículo na sua frente? 40 carrinhos a mais no seu engarrafamento? Então, que tal, ao menos, ter compaixão? Ah! E lembre-se, eles não estão no ar condicionado, então, o quanto antes chegarem ao destino, menos sufoco passam.

Mas quem se importa? Você se importa?

Sigamos. Quem se importa se o Sicrano tá trabalhando em pleno feriado, enquanto você tá na praia? Ele é aquele invisível ali fazendo a sua caipirinha. Certo dia vi um cara reclamando que EM PLENA SEGUNDA FEIRA DE CARNAVAL a academia estava FECHADA!!! Como assim? Quanta vagabundagem, não é mesmo? A pessoa estar de folga em plena segunda-feira de carnaval? Eu tinha até pensando em contratar o serviço do cara reclamão, mas, depois de ver que ele não se solidariza, eu achei melhor buscar outro profissional, daqueles que conseguem ser humanos, sabe? Não sei se vende mais, se terei mais sucesso, mas certamente me fará dormir com a consciência limpinha à noite. Prefiro.

Eu tô falando é de viver sem ser umbigo. É de ser coletivo antes de ser um. É de diminuir o seu tempo no banho pra poupar a água da sua cidade que vive na seca, é de usar àquele canudo mais de uma vez pra ver se a tartaruga não morre por sua causa. Eu tô falando de, todo santo dia, toda santa vez que você for apedrejar alguém, tentar entender o que tem ali atrás. 

Não, eu não estou falando de entender o que tem por trás do machismo, da misoginia, do racismo, e de qualquer tipo de preconceito. Contra essas pessoas, seja taxativa. Não aceite essa conversa fiada de que “é que eu sou de outro tempo”, ou “era só uma piada”, ou “essas feministas são muito exageradas”. Se não quiser discutir, faça uma cara feia e saia da roda. Eu entendo, não é todo dia que a gente tá com paciência para lutar por causas tão óbvias.

Ah! Desculpe se fui muito radical. Se você se identifica com alguma (s) das frases acima, te aconselho a começar a assistir no Netflix a série “Coisa mais linda”. Vê lá e me diz o que seria de nós sem as feministas. Tomara que você se importe.

Aah! Eu também estou falando de você não achar por bem celebrar o dia 31 de Março, dia em que os militares deram um golpe no Brasil e instauraram uma ditadura por mais de 20 anos. Eu tô falando de você não ser conivente com a tortura e com mortes de inocentes. Também estou falando de você não ser a favor da censura e prezar pela sua liberdade de expressão, e a liberdade dos outros, claro. Infelizmente, o presidente eleito não sabe nem do que eu tô falando, desconhece profundamente o que é a dor do outro. Lamentável.

Eu sigo aqui ainda meio capenga, o joelho dói e a alma pesa e vice-versa. Vou buscando ficar perto de quem se importa, de quem cuida, de quem acolhe, de quem abraça… Espero poder abraçar também, porque empatia é troca, empatia é importar-se.

Mas quem se importa? Você se importa?

3 Comentários

  1. George & Maíra

    Oi, Lu! Estávamos aqui assistindo “Coisa Mais Linda” e que surpresa feliz ver nossa série preferida do momento citada por você! Que tal fazer um review desse seriado que conquistou todos nós? Ah, P.S.: Eu me importo 🙂 M & G

    1. Luciana Targino

      Ah! Que coincidência linda. Diz uma amiga que isso é sintonia. Fico muito feliz em saber que as pessoas se importam também :). Olha, adorei a dica, vou pensar sobre isso. Juro que tô órfã porque não dosei direito e assisti tudo no mesmo dia, kkkkk. Agora fico pensando como estão Malu, Adélia, Lídia e Teresa. 🙂

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