Ando completamente sem constância neste blog. A última crônica que escrevi data do mês de março passado. Foi uma crônica falando sobre o tempo e da falta de noção do tempo diante de uma viagem ao Rio de Janeiro ainda sem data para a volta. Não sabia se passaria uma, duas, três semanas… – fiquei três mesmo, porque o Rio de Janeiro me faz nunca querer ir embora – e, diante da pergunta recorrente “Você vai ficar quanto tempo?”, eu me inspirei pra falar sobre um tempo difuso, sem cronologia, que dura o tempo da nossa percepção sobre o tempo.
Eis que passa o tempo no atropelo que só o tempo é capaz de fazer e eu passei quase um ano de abandono do meu próprio blog, pelo qual eu nutro um carinho imenso. Ainda me lembro do dia em que o criei. O ano era 2013 e, logo após comprar uma passagem de férias para Paris, somente a ida, e ouvir da atendente a seguinte frase: “Paris só de ida?” eu comprei a passagem, desliguei o telefone com a companhia aérea e criei o meu blog. Paris Só de Ida era uma metáfora deliciosa de uma possibilidade de sair da rotina que estava me sufocando e abrir o horizonte, começando por uma cidade encantadora, deliciosa e linda. Minha alma se expandiu e foi ali que eu comecei a escrever. Já contei essa história outras vezes, inclusive na última crônica escrita láaaaaa em março passado.
Minha escrita inicial era bem amadora. Um parêntesis: dia desses eu ouvi alguém falando sobre fazer algo de forma amadora como algo positivo, pois amador vem da palavra amor, alguém que faz por amor, com amor, mesmo que não tenha total preparo para desempenhar aquela atividade. Era assim, e ainda é, escrevo com amor e por amor, mas, hoje, de forma menos amadora. Minha escrita foi como um caminho, trilhado ano a ano, que foi me levando por lugares desconhecidos tanto externos quanto internos a mim, já que, quanto mais você lê, mais você pode conhecer o outro e, de forma surpreendente, vai conhecendo a si mesmo.
Parêntesis enorme, do tamanho de um parágrafo, por isso vou iniciar outro, sorry! Pois bem, era amadora, feita com amor, mas feita de uma forma muito catártica. Escrevia com fúria, com dor, sentindo saudade, apaixonadamente, com tristeza, com euforia… Era o sentimento que ditava o texto e isso é bom, pois traz a verdade do escritor e permite a empatia entre leitor-escritor, pois esses sentimentos são inerentes a todos nós, só que, no dia a dia, a gente tenta suprimi-los. Na literatura é permitido liberá-los, seja quem escreve, seja quem lê e isso é delicioso, além de saudável, claro, porque segurar sentimento adoece.
Com o tempo, eu fui ficando mais crítica com relação ao meu próprio texto e eu estou desconfiada de que esse possa ter sido o problema. Ouvi que eu deveria usar mais a razão e menos o fígado na minha escrita e eu, nessa preocupação de parecer inteligentemente crítica e não uma amadora literária, fui me podando, me podando… Passei a escrever bem menos.
Não foi só isso, claro. Os último anos me levaram mais para dentro de mim do que me deram vontade de me expandir. Acho que o distanciamento social imposto pela pandemia e o estranhamento social imposto pela política me fizeram calar. Perdi, inclusive, a facilidade que tinha para a escrita. Penso que pulsão para a escrita seja a emoção e os tempos difíceis nos congelam até no sentir. Uma certa dor, como a de amor, por exemplo, é fonte de inspiração para o artista, não há dúvida disso, mas quando a dor é muita, fica difícil até respirar, quanto mais se inspirar.
Essa confluência me levou a ir abandonando este nosso blog. Abandonei leitores antigos, os quais nunca conheci, mas que, de vez em quando, me escreviam para falar do quanto gostavam de ler as minhas crônicas. Lembro-me de um casal que toda semana esperava o texto “da Paris”. Tem coisa mais gratificante do que isso? A esse casal, ficam aqui as minhas sinceras desculpas. Abandonei um pouco de mim, uma parte de minha espontaneidade que se deliciava com a possibilidade de abrir essa janela de escrita, de lançar ao vento meu pensamento, meu sentimento, minha opinião que, com sorte, caía nas vistas de alguém que, concordando ou discordando, também era levado a uma reflexão. Esse, para mim, é o grande poder literatura, a de ajudar a formar o pensamento crítico das pessoas. Antonio Candido é brilhante ao dizer que a literatura é um direito das pessoas, de todas elas, pois a literatura permite que possamos conhecer o outro, o mundo, e isso possibilita a gente conhecer nossos direitos e nos rebelarmos contra injustiças. É justamente por esse poder das palavras que países ditadores censuram a literatura, a arte em geral, pois a ela nos fazer refletir, e tudo o que uma ditadura não quer é um povo que pense.
Quase um ano se passou desde a última vez que vim aqui neste blog. Não deixei de pensar, claro, e nem de escrever por completo, aqui, acolá, eu escrevia no Instagram. Só que lá, a escrita é curta, não permite que se façam tantas reflexões, conexões e eu nem sei se as pessoas estão tão interessadas em textos longos naquele canal. Eu mesma não os leio.
Mas sempre que eu volto a escrever, eu penso que pode ser o início de uma retomada de uma rotina que me fazia tão bem. Sempre que volto, penso por que fiquei tanto tempo longe. Mas hoje eu consigo perceber esse tempo que passei em silêncio, precisando me segurar em mim mesma diante das turbulências que passei. Passaram, ou estão passando, pelo menos. E eu, passarinho.


